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Para Seguir Minha Jornada – Almanaque Chico Buarque

chico buarque e tom jobim

Ao longo de vários anos, uma tia do Chico Buarque foi recolhendo todo o material que encontrava sobre o sobrinho e arquivando. Quando ela morreu, Miúcha, a irmã mais famosa de Chico, herdou o “baú” e repassou-o à jornalista e escritora Regina Zappa, que o digeriu e com ele fez este livro.

Leitura bastante agradável e indissociável da própria história brasileira dos anos 60 até aos dias de hoje, passando pelo nascimento da bossa nova, da jovem guarda e do tropicalismo, relembrando as atrocidades da ditadura militar que forçou o seu exílio, as raízes do PT e de Lula, e até coisas bem mais remotas, como a chegada de Arnau de Hollanda ao Brasil em 1535, 180 anos antes do primeiro Buarque.

Apesar de se tornar algo repetitivo em alguns pontos, contando as mesmas histórias ou opiniões de forma diferente, na maior parte do tempo é muito interessante viajar pelos diversos acontecimentos que o foram moldando enquanto artista e pessoa, e descobrindo também algumas facetas menos conhecidas.

Agora a parte menos positiva. Comprei este livro na versão ebook para o Kindle, até porque de outra forma ainda não está disponível em Portugal. Foi a primeira vez que fiquei algo desiludido com uma versão eletrônica, não só porque grande parte das imagens de recortes de jornais, documentos e afins são ilegíveis, mesmo com zoom, como tinha algumas falhas de edição que revelam descuido ou pressa. Não borra a pintura, mas enche o saco.

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A Gloriosa Família

O melhor presente que recebi no Natal passado foi este glorioso romance do mangole Pepetela, que retrata a saga da família de Baltazar Van Dum, um holandês radicado em Luanda durante o período de ocupação holandesa da cidade (entre 1642 e 1648).

Van Dum é comerciante de escravos e um tremendo diplomata/malandro, mantendo boas relações com os portugueses (por ser católico) e os “mafulos”, conseguindo sempre agradar a gregos e troianos através de artimanhas várias, suas ou dos onze filhos que constituem a sua prole, uns oficiais, outros “de quintal”, ou seja, feitos em escravas.

As peripécias da família vão sendo narradas por um curioso escravo, o que contribui para acentuar ainda mais as crendices e os elementos mitológicos que tanto aprecio nos escritores africanos, aqui num expoente de originalidade e destreza máxima.

Além da escrita prodigiosa, o livro triunfa sob o aspeto das lições de história que nos dá, visto que o que aprendemos na escola sobre o desenrolar dos acontecimentos nas ex-colónias portuguesas é escasso ou superficial.

Muito bom, !

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Coelho Pirata

Falando de um tema que me é cada vez mais caro:

Quem como eu visita frequentemente o Pirate Bay, pode ter sentido alguma estranheza ao ver a foto do Paulo Coelho escarrapachada na homepage, de há uns dias para cá.

Sucede que o Pirate Bay está disposto a promover artistas que manifestem esse interesse, e o Paulo Coelho foi lesto a aproveitar essa benesse, ele que faz questão de vincar a sua posição favorável quanto à pirataria.

Vinda de um dos autores que mais vendem no mundo, e um dos mais inteligentes na forma como trata a escrita como um negócio,  esta frase é lapidar:

“Quanto mais gente piratear um livro, melhor”.

Não sendo fã, tiro aqui pela segunda vez o chapéu ao menino que nasceu morto.

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Kindle em Português

Na minha opinião o maior ponto fraco do Kindle (para nós, amantes da lusofonia), é a escassez de conteúdos em português. Eu até agora encontrei o seguinte:

Quem souber mais que se chibe.

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Bram Stoker’s Dracula

Falo aqui do romance de 1897 e não do filme homónimo, o primeiro clássico que o Kindle me deu o prazer de ler.

Não foi uma leitura fácil de arrancar, primeiro, pela linguagem e pelos maneirismos do inglês da altura; depois, pelo próprio ritmo da narrativa: é um romance epistolar, em que a história é desenvolvida através de cartas, jornais e diários dos personagens, e nas primeiras páginas todos estes elementos são extremamente descritivos e vagarosos. Passado o choque inicial, achei bastante interessante esta estrutura e a forma como vai juntando as peças e nos fornecendo diferentes perspectivas dos acontecimentos, bem como todo o ambiente gótico que os envolve.

Na minha opinião o Conde em si nem entra na competição para personagem mais interessante do livro, cabendo este papel a Renfield, o louco, seguido pelo professor Van Helsing. Todos os outros “bons” chegam a ser insípidos, de tão bons e puros que são e a forma como isso é constantemente salientado em cada página (e o quão maligno e repugnante é o Dracula, em contraste). Ao louco cabe um papel ambíguo, na forma como é usado pelo mal, e o modo delicioso como é relatado o  “method in his madness”. Já o velho Van Helsing, apesar de também ser extremamente bom e magnânimo, possui alguma frieza no seu raciocínio e métodos pouco ortodoxos de convencer os restantes e a levar a sua luta avante. As suas dissertações acerca das origens do Drácula, do comportamento humano (e desumano), sobre necromancia e etimologia, são qualquer coisa de brilhante.

Em suma, é um romance cativante e indispensável quer se goste ou não da temática, que tão em baixo tem andado. É pena (pelo menos nesta versão) não possuir ilustrações, pois proporciona um imaginário bastante propício a isso.

Gostava de poder avaliar a fidelidade do filme (ainda o do Coppola, entre inúmeros outros) ao livro, mas vi-o quando era muito, muito novinho, e pouco mais me lembro do que ter ficado fascinado com as maminhas da Monica Belucci e das amigas e de resto ter me escondido debaixo do cobertor por grande parte do tempo. Fica pra rever.

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Afiliado Wook

A partir de agora este blog passa a ser oficialmente um blog afiliado à livraria online Wook.

Aliando o meu gosto de escrever sobre livros a esta oportunidade, vou publicar aqui links directos para a wook, bem como alguns banners da loja, que ainda estou afinando. Por cada acesso através daqui eu tenho a oportunidade de ganhar uma pequena comissão conversível em vales.

Sou, cada vez mais, um vendido.

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Leituras, Tecnologias

Kindle

Passada a primeira semana de uso intensivo, aqui vai a prometida review do bicho.

Começo por dizer que gosto mais dele do que esperava. O que me movia no desejo de ter uma coisa destas era mais a curiosidade e a vontade de tirar a teima se era capaz de ser seduzido por algo sem cheiro a livro, eu, informático, mas purista no que à leitura diz respeito.

É extremamente leve (240g), tem uma interface do mais simples e prático possível e quando dedicado à sua função principal, a de me entregar à leitura, faz-me esquecer que estou a dar uso a um dispositivo electrónico. Prender os meus olhos num ecrã destes não tem nada a ver com fazê-lo num computador ou num smartphone (nunca tentei num tablet, mas é a mesma coisa). Não cansa. A tecnologia E-Ink é de uma suavidade, rapidez e qualidade impressionantes, mesmo para fotos e imagens.

Além disso, torna a experiência de leitura interessante, mas mais uma vez de forma transparente e rápida; com um ou dois toques é possível consultar significados de palavras no dicionário, fazer “cortes” e anotações e sincronizá-las com a nossa conta automaticamente. Apesar de os seus ficheiros nativos terem um formato próprio, podemos enviar para o aparelho PDF’s que são convertidos sem espinhas, de forma não perfeita mas bastante satisfatória.

Ainda não paguei por nenhum dos livros que lá estão; na primeira utilização adquiri gratuitamente (adoro ver encomendas com o valor total de 0€) diversos clássicos: Frankenstein, Ilha do Tesouro, Count of Monte Cristo, The Man Who Would Be King, e por aí vai, sendo o meu primeiro grande teste à ferramenta o Dracula, de Bram Stoker, que acabarei de ler em breve.

Dei também uso exaustivo aos 15 dias de assinatura gratuita de diversos jornais e revistas (Globo, Time, Público, etc). Aproveito para dizer que o Público, o único jornal português com versão kindle, confirma aqui aquilo que eu já achava: é o jornal nacional que melhor aproveita e dinamiza a sua presença em meios não tradicionais. No entanto, tem um pequeno grande senão que me impede de optar por subscrevê-lo no kindle, e do qual pretendo lhes dar conta através do provedor ou outro meio qualquer: não disponibiliza nesta versão os suplementos (fugas, ipsilon, pública, etc), o que deita um bocado por terra a motivação de pagar por um conteúdo que é um bocado mais barato que o tradicional, mas que é extremamente penalizado em relação a este.

Com uma semana de uso diário, de manhã (autocarro) e à noite, a bateria mal deu sinal de si (baixou um “ponto”, dura 2 meses sem wifi, segundo consta). Todo o processo de compra e subscrição também é extremamente simples, podendo ser feito directamente no aparelho ou através do site, sendo tudo sincronizado eficaz e  automágicamente quando o wifi é ligado.

O que não gosto nele:

Comecei por não gostar do efeito de transição de uma página para outra, mas agora já nem sequer o noto, é uma habituação rápida.

A falta de conteúdos em português, mas creio que isso tem tendência a ser ultrapassável.

A loja quando acedida pelo kindle tem menos funcionalidades do que quando acedida pelo browser; por exemplo, não podemos (ou ainda não vi como possamos) em cada categoria escolher a opção de só ver livros gratuitos.

Também não gosto muito da filosofia da centralização do processo de compra/empréstimo na kindle store, apesar da praticidade que isso permite. É um mal menor e não é um mal do kindle em particular, tudo neste momento se encaminha neste sentido; num processo deste perco o meu anonimato, não posso comprar um livro e tomá-lo como efectivamente meu e fazer dele o que quiser como antigamente, mas é um preço que se paga (ver opinião do Richard Stallman sobre o assunto).

E assim, rendido estou a este e-book reader, e fico na expectativa do que a Amazon irá fazer quando se intrometer no mercado dos tablets, podendo ser a única a me fazer desejar uma coisa dessas. Fica pra pensar.

With a week of intensive use, here comes the review of my new toy.

I like him much more than I’ve ever thought. What led me to desire this thing was more the curiosity of seeing if I could be seduced by something without the distinct smell of paper, me, a computer guy who is a purist concerning reading and literature.

It’s extremely light (240g) and thin, and couldn’t have a simpler interface to deal with. When dedicated to its main function, makes me forget I’m using an electronic device. Attaching my little eyes to this thing has nothing to do with making the same thing with a computer or a smartphone (never tried a tablet, but it’s the same thing). They don’t get tired. The e-ink technology its quite impressive for its smoothness, speed and quality, even for photos and images.

Besides that, the reading experience tends to be more interesting, in a transparent and simple way; with a few touches, we can consult dictionary meanings, make clippings and annotations and synchronize them with our account automatically. Although its native files are in a propietary format, we can send PDF’s to the device and they are converted seamlessly, not in a perfect shape but in a very satisfactory one.

I haven’t paid for any of the contents I have in it yet; in my first use, I acquired free of charge lots of classics: Treasure Island, Frankenstein, Count of Monte Cristo, The Man Who Would Be King, and so on, Bram Stoker Dracula being my first big test. I’m also taking advantage of several 15 trial subscriptions of newspapers and magazines around the world (Times, Globo, Público and so on).

With a week of intense use, the battery barely gave signs of usage (they say it can last two months without wireless).

What I don’t like about it:

At first I didn’t like the transition effect, but now I don’t even notice it anymore, it’s very easy to adapt to.

The lack of contents in my mother language, but I thing that will get better with time.

The store has less functionalities when accessed with the device; for example, we cannot (or I don’t see how we can) only select the free books when in a category.

I’m also not an enthusiast of the philosophy inherent to its buying and using process, although it is very practical. In fact, that’s not Kindle’s problem, but a growing tendency in everything. In other words, just read Richard Stallman’s opinion about it, but I guess it’s the price to pay, and not really a big problem for me.

Conclusion: I’m totally delighted and convinced with this e-book reader, and eager to discover how Amazon will get into the tablets market; I think at this time they’re the only ones who can make me desire such a thing. Let’s see.

 

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Jesusalém

 

“Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor no auge das suas capacidades criativas”, é o que diz na contracapa do último romance de Mia Couto, Jesusalém (Antes de Nascer o Mundo, no Brasil).  Não consigo reiterar a primeira parte da frase porque não li todas as suas obras e nem consigo me decidir entre este e Terra Sonâmbula, mas que está indiscutivelmente no auge das suas capacidades, está.

Silvestre Vitalício é um velho amargurado que, dada uma tragédia familiar, decide alhear-se do mundo levando consigo os seus dois filhos (Mwanito e Ntunzi), uma jumenta e um serviçal, fundando num povoado distante da sociedade uma nova terra, Jesusalém, onde dizia que Jesus haveria de regressar e se “descrucificar”.

O corte estabelecido entre Jesusalém e o “velho mundo” é de tal modo profundo que Silvestre alterou o seu nome e dos seus filhos, e indicou-lhes que o mundo terminara e eram eles os últimos sobreviventes. Impedia o mais novo de aprender a ler e escrever, e esconjurava tudo o que fossem resquícios de lembranças da sua antiga vida. O único que possuía autorização para cruzar as fronteiras de Jesusalém era o seu cunhado Aproximado, que de tempos a tempos abastecia-lhes de mantimentos.

Todo este mundo de ilusões é abalado pela presença de uma mulher portuguesa, que vem despertar ainda mais a curiosidade e a revolta das duas criançar, e reavivar os fantasmas que Silvestre pretendia enterrar.

O grande forte do livro é o tom poético (diria quase mágico) como Mwanito e o irmão vão amadurecendo e se questionando sobre o não-mundo onde enterram as suas infâncias, inventando emoções e lembranças e descascando aos poucos a complexa realidade que seu pai fabricou para se esconder. Outro ponto interessante é o modo como, não existindo mulheres em Jesusalém, a presença feminina não cessa de ser evocada e quase divina, materializada posteriormente pela portuguesa.

De brinde, o livro está povoado de excertos de belíssimos poemas no início de cada capítulo, (vários) de Sophia de Mello Breyner Andresen, Hilda Hilst, Adélia Prado e outras mais.

Fica pra ler.

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Terras do Sem-Fim

Fazia um bom tempo que eu não lia um clássico, na verdadeira acepção da palavra. Este foi emprestado, em edição antiga, com textura, cor e cheiro a clássico. Terras do Sem-Fim é mais um excelente romance de Jorge Amado que, como Tieta ou Gabriela Cravo e Canela, deu em novela.

O livro retrata o desbravamento e expansão de parte do território do estado da Bahia, com a chegada da “febre” do cacau à região, no início do século XX. De uma era em que a escravidão já havia sido abolida formalmente mas em que o visgo do cacau e a perspectiva de um futuro melhor mantinham presos e obcecados diversos homens, e em que imperava a lei da bala e do facão dos coronéis.

Dois coronéis são o centro da narrativa, Horácio da Silveira e Sinhô Badaró, que disputam de forma acirrada cada palmo de terra da mata de Sequeiro Grande, mas o verdadeiro personagem central do livro é a própria terra, a mata que enfeitiça e consome as mais diversas e rocambolescas personagens e o próprio leitor, pela pena do mestre. Com muita história de amor e de sangue pelo meio.

Depois de Capitães de Areia (este no topo) e Gabriela, confirma-se que não há livro de Jorge Amado de que eu não goste.

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