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Favismo

Pois é, qualquer dia tenho que fazer mesmo um spin-off deste blog só para falar de doenças mais ou menos esquisitas. Senhoras e senhores, depois das amigdalectomias, da PTI e das hérnias, apresento-vos o favismo.

Quando pensamos que já nada nos pode surpreender, eis que de um momento para o outro, numa quarta-feira de Abril como outra qualquer (tirando estarmos a meio de uma pandemia, mas isso é a tal nova normalidade), começo a sentir-me fraco. Muito fraco.

Na quinta, mais fraco ainda, mal me levantando da cama e com dores de cabeça à mistura, suspeitando já do corona-bicho ter invadido o meu corpo, e na sexta, o susto derradeiro: cada vez que ia ao WC, ao invés de mijar… mijo, saía de dentro de mim um liquído que mais se assemelhava a vinho do Porto.

Além disso, e isso foi algo em que eu nem reparei mas que assustou (ainda mais) a minha querida esposa, estava amarelo em geral e no “branco dos olhos” em particular. Telefonema para a Saúde 24 como manda a lei, encaminhamento para o Hospital Garcia da Orta, de onde só saí uma semana depois…

O diagnóstico do que tinha na altura foi bem rápido, eu estava com uma forte anemia hemolítica e aquela urina não tinha sangue, mas estava com aquela bonita cor devido aos meus glóbulos vermelhos estarem a rebentar. O motivo disso estar a acontecer é que demorou a confirmar, porque a análise em causa é relativamente rara e foi enviada para um laboratório externo, e os laboratórios neste momento estão sobrecarregados por razões óbvias; mas a primeira médica que me observou desconfiou logo do problema, e confesso que me senti num episódio do Dr. House quando ela me perguntou “comeu favas?”.

Sim, tinha comido. À bruta. Ao almoço e ao jantar, no dia anterior (sou o único aqui em casa que gosto GOSTAVA de favas).

Então sucede que tenho favismo, uma condição genética que faz com que eu não tenha uma enzima chamada Glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e que é suposto proteger os glóbulos vermelhos de algumas substâncias existentes em certos elementos, e principalmente, nas p**** tas das favas.

Já tinha comido favas algumas vezes na vida, mas não tantas quanto isso (não é algo comum ou sequer conhecido no Brasil), e pelos vistos nunca em quantidade ou nas condições suficientes para me causar a reacção que causou desta vez.

Não cheguei ao ponto de ter que levar uma transfusão mas tive perto, tive um episódio de desmaio na primeira manhã pós-isolamento antes de vir o resultado do meu teste do covid (veio negativo), mas felizmente fui muito bem tratado no Garcia, e senti-me sempre, sempre seguro, com os milhentos cuidados e trabalhos acrescidos que eles tem neste momento devido ao covid.

Com isto descobri que essa doença existe, que vou ter que viver com ela e nunca mais ingerir ou passar perto desse alimento que outrora me fez as delícias, e que desde tempos imemoriais que ele é de má fama por causa destas e de outras, o famoso Pitágoras considerava-os inclusivé um símbolo da morte!

Tudo está bem quando acaba bem, e não posso deixar de terminar com o trocadilho mais previsível possível: calhou-me a fava.

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Leituras

Grande Sertão Veredas

Grande sertão, enorme livro. É a primeira vez que é editado em Portugal, é um clássico que me faltava, e é talvez o livro em língua portuguesa que mais me tenha impressionado até hoje. Vai me levar com certeza a mergulhar mais a fundo na obra do autor, João Guimarães Rosa.

O livro conta a história do jagunço Riobaldo, ao mesmo tempo narrador e protagonista, e tem como cenário o sertão brasileiro, os trilhos do gado e a relação diferenciada do herói (?) com outro jagunço, Diadorim.

Uma das coisas que mais impressiona é mesmo a falta de limites e regras na linguagem; não é um português “puro”, mas um português do Brasil e do sertão profundo, nunca deixando ainda assim de soar a erudito. Parece estranho, porque verdadeiramente é!

A segunda é a capacidade de imaginação e de convergência de tantas estórias, culturas, crenças, locais, saberes, descritos de forma tão minuciosa que é difícil acreditar que o homem não tenha de facto vivenciado o sertão no meio dos jagunços que descreveu.

Finalmente, é impressionante que tenha sido escrito em 1956, de tão revolucionário na forma e no conteúdo que é (até laivos de conteúdo “Brokeback Mountain” a coisa tem).

As páginas finais desta edição portuguesa da Companhia das Letras são dedicadas a um resumo cronológico da biografia do autor, não menos impressionante. Erudito desde tenra idade, formado em medicina e com uma carreira em diplomacia que o levou a passar pela Alemanha durante a Segunda Guerra (e a salvar alguns judeus pelo caminho, à la Aristides), teve a vida e a carreira literárias interrompidas demasiado cedo, aos 59 anos, pouco depois de ter sido indicado ao prémio Nobel da Literatura.Viesse ou não a ganhá-lo um dia, com certeza ficamos mais pobres com o seu desaparecimento.

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Depois do Medo

No passado dia 14 de Fevereiro, dia dos namorados em Portugal, eu e a Irina tivemos um dos nossos últimos momentos de normalidade a dois.

Nem costumamos ligar particularmente a essa data, mas aproveitamos já termos bilhetes para o espectáculo de stand-up do Bruno Nogueira no Altice Arena e desfrutamos completamente dessa noite a dois, após tantos e tantos meses sem um momento assim.

O espectáculo em si foi muito bom, não havendo propriamente uma forma clara de descrevê-lo, sendo basicamente uma série de divagações soltas e sem filtro sobre temas mais ou menos aleatórios da actualidade e da própria vida do Bruno; hilariantes os momentos em que ele usa os próprios pais (que estavam na plateia) como alvo, sem dó nem piedade, compensando-os no fim quando os chama ao palco e pede uma ovação do público para, parafraseando, eles sentirem por uma vez o que é ter tanta gente a gostar deles.

Olhando para trás, tem o seu quê de surreal só ter passado pouco mais de um mês sobre essa data, em que apanhamos trânsito e tivemos dificuldade em estacionar como numa qualquer sexta-feira em Lisboa, jantamos sushi e estivemos despreocupadamente no meio de milhares de pessoas num Altice Arena lotado.

E o título soava quase a premonitório…

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Os meus filmes de 2019

O ano passado só fiz isto em Janeiro, este ano já cai quase em Abril, ano que vem talvez lance em 2022 os filmes de 2020 🙂

Fora de brincadeiras, o meu top dos filmes de 2019 é bem fácil, porque não vi tantos filmes “do ano” assim. Foi um ano em que mais uma vez apostei muito em ver e re-ver clássicos (Spartacus, Psycho, Clockwork Orange, Orfeu Negro, entre outros) ainda me faltam ver alguns dos mais badalados (à cabeça, 1917, Parasitas, a Herdade), mas para manter a tradição, o meu top foi este:

Joker

Pelo filme que é, pelo que mexe comigo e pelo quanto excedeu as expectativas que tinha.

Once Upon a Time in Hollywood

Porque quanto mais o vejo (já foram mais duas vezes depois do cinema), mais gosto dele.

The Irishman

Porque podia ficar as 3 horas e tal de filme só a ver o Joe Pesci a fazer de mafioso.

A única coisa que não me convenceu muito foram os tais efeitos de “rejuvenescimento” dos cotas, que nunca me parece ser assim tão natural, mas é algo que se torna secundário no meio da genialidade dos actores.

Uncut Gems

Porque acho que o Adam Sandler faz muito filme de merda mas não consigo deixar de nutrir alguma simpatia por ele, e por chegar ao fim deste filme e perceber que isso tem razão de ser.

Faz aqui um papel brutal que penso que merecia um hype bem maior do que aquele que teve.

Variações

Porque não fica a dever absolutamente nada a nenhum biopic “estrangeiro”.

Klaus

Porque foi o único filme de animação que me prendeu verdadeiramente este ano, demonstrando que há sempre qualquer coisa de original que se consegue fazer com a velha fórmula natalícia de derreter um velho coração gelado.

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Leituras

Essa Gente

Se o livro anterior (O Irmão Alemão) já me tinha deixado sentimentos mistos, este novo romance do Chico Buarque não me convenceu mesmo, de todo.

Anunciado pela editora como “uma tragicomédia urgente que encara de frente o Brasil de agora”, acho que peca precisamente pela forma forçada como vai tentando chamar a atenção para os problemas do Rio de hoje (intolerância, extremismo, desigualdade, etc.); pela inteligência e pela mestria nas palavras que ele tem, esperava uma sátira mais mordaz mas menos denunciada.

É uma leitura fácil e até cativante, tem umas trocas interessantes de narrador e umas misturas entre discurso directo e delírio, mas esperava um toque de génio que me deslumbrasse mais.

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Contadores de Sorrisos

Uma das coisas que mais gosto de fazer é escrever, mas poucas vezes partilho o que escrevo.

Durante a minha habitual viagem Corroios – Sete Rios, sem pretensão nenhuma, escrevi um micro-conto sobre sorrisos, e ele foi seleccionado para o livro de oferta natalícia dos centros comerciais Alegro.

O livro é ilustrado pelo grande Paulo Galindro, o pai do Cuquedo, e neste âmbito os CC Alegro deram um contributo para a causa da Nuvem Vitória, portanto é um orgulho triplo 🙂

Passem pelos Alegro a partir deste fim de semana para apanhar a edição final e conhecer 10 belos contos sobre sorrisos.

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Sem categoria

Nuvem Vitória

Já há muito tempo que me queria envolver a sério com uma iniciativa de voluntariado, e quando vi por mero acaso o anúncio de que o projecto Nuvem Vitória estava a chegar ao Garcia da Orta, não hesitei (já agora, o anúncio foi no Facebook, o que me faz ter ainda uma réstia de fé na utilidade das redes sociais).

Nunca tinha ouvido falar da Nuvem, mas foi um match instantâneo, pois é não só algo que adoro fazer (ler histórias), quanto é também num contexto em que infelizmente já me encontrei com a minha filha (internamento pediátrico), e portanto sei na pele da importância da existência de momentos que distraiam e transportem a mente das crianças (e dos pais/cuidadores) para outros lugares.

Tivemos uma formação de dois dias e meio bastante intensa e enriquecedora a vários níveis; na partilha da missão pelos fundadores, nas histórias e na arte de contá-las pelas formadoras, na vontade de dar um bocado de si, de toda a gente em geral.

Hoje aconteceu a primeira acção no HGO, na sexta tenho a minha primeira acção marcada, mas apenas como suplente, a dia 15 de Novembro será a estreia “a doer”, e estou receoso, mas muito, muito entusiasmado.

Vitória, vitória, que comece a história.

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Cinemadas

Joker

Não tinha expectativas nenhumas sobre este filme quando ouvi falar da sua produção, o que só tornou melhor a experiência de ver o resultado final; assim de repente a DC lança da cartola um filme que demonstra que afinal ainda é possível fazer bom cinema com o universo dos super-heróis e da banda desenhada.

Não me levem a mal; comi os últimos filmes todos da Marvel e desfrutei, gosto de um bom filme-pipoca também… mas aquela merda é toda sempre igual, é muito óbvio que perceberam que a fórmula dá dinheiro e vão repeti-la até à exaustão, não os censuro.

Aqui a história foi outra; isto é quase um filme de autor, sem aparentes pretensões de ser incluído em sequelas megalómanas de universos grandiosos, é simples, é arriscado, provoca emoções fortes, dá que pensar… é um filme a sério, com uma interpretação e uma entrega absurdas por parte do protagonista, com várias leituras e questões em aberto, uma atmosfera carregada, intensa, suja, uma série de combinações que muito dificilmente não deixam uma marca forte no espectador.

Poupem a questão de nomear outras pessoas para aquela estatueta dourada e entreguem-na já ao Joaquin.

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Teatradas

Intimidade Indecente

Dois actores enormes, um texto à altura e um sofá, é o quanto basta para termos uma incrível peça de teatro.

Intimidade Indecente é, enquadrando de forma redutora, uma comédia romântica em que acompanhamos a trajectória de um casal (Vera Holtz e Marcos Caruso) que se separa aos 50 anos de idade, e a partir daí vamos acompanhando o envelhecimento e os desencontros de ambos mais ou menos década a década, alternando entre momentos absolutamente hilariantes e outros que puxam a outro tipo de emoções.

Esse envelhecimento não é feito com os recursos de maquilhagem e de computação gráfica que facilitam a coisa no cinema; sem sequer saírem de cena e trocarem de figurino, eles fazem-no simplesmente com a postura do corpo, a alteração da voz e do comportamento. Fácil de tentar, muito difícil de fazer com a mestria com que eles o conseguem.

Já não vão muito a tempo de desfrutarem dela em Lisboa (termina segunda-feira dia 4), mas o pessoal do Porto que aproveite, que vale muito, muito a pena.

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Andanças

Portugal dos Pequenitos

Uma das partes boas de viajar com filhos pequenos é que rapidamente eles esquecem das viagens e podemos repetir que será novidade na mesma.

Apesar do último feriado da implantação da república ter calhado no sábado, não deixamos de usar esse fim de semana tão especial para dar um passeio, e pouco mais de um ano depois voltamos a Miranda do Corvo e ao Parque Biológico da Serra da Lousã, do qual não vou repetir o relato, pois o anterior diz tudo sobre a experiência excelente que tivemos, mais uma vez.

A novidade foi que desta vez estava melhor tempo e aproveitamos para regressar por Coimbra e parar no Portugal dos Pequenitos, onde tanto eu quanto a Irina não íamos há muito, muito tempo, e do qual a única memória que eu tinha é que aquilo parecia-me ser enorme.

Lá está, éramos… pequenitos, e à escala tudo parece grande, hoje em dia surpreendeu-nos a facilidade com que em um par de horas (esticadas) vemos e revemos todo o espaço.

Ainda assim, não deixa de ser uma boa experiência e um espaço muito engraçado e com fama merecida, as crianças adoram deambular pelas diferentes casinhas, igrejas castelos feitos à medida deles. Algumas notas principais:

  • Sim, é Portugal dos Pequenitos, apesar de toda a gente dizer que é dos Pequeninos.
  • A parte da entrada, correspondente às antigas colónias, já não faz grande sentido, com uma imagem completamente imperial/colonialista, com uma estereotipagem brutal dos negros selvagens; no entanto, também não creio que faça sentido mudá-la, pois é tão só uma coisa datada, e o verdadeiro público-alvo, as crianças, não verá as coisas por essa lente.
  • O preço que cobram pelo comboio que dá uma mísera voltinha pelo quarteirão da entrada é um assalto, deveria estar incluído na entrada, que sendo aceitável, não é propriamente barata.

Em suma, não é nada de extraordinário, mas tem a sua mística própria e vale sempre a pena.

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