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1984

Big Brother is watching you.

Ultimamente tenho tentado dedicar o meu tempo livre aos clássicos, tanto no que diz respeito ao cinema quanto à literatura, e este era um dos que estava na calha há bastante tempo.

Li a versão portuguesa traduzida pela Ana Luísa Faria e editada pela Antígona. Só depois de terminar a leitura é que me apercebi da idade do livro: foi publicado pela primeira vez em 1949, e não sei se isso torna ainda mais impressionante a capacidade visionária do George Orwell de manter uma história actual durante tanto tempo, ou simplesmente ilustra o quão pouco evoluímos em determinados aspectos. Infelizmente inclino-me para a última, pois acho que muitas das temáticas nele abordadas acabarão por ser tendências sempre actuais, nomeadamente o revisionismo e a manipulação da opinião pública, e a ganância e voracidade das máquinas do poder.

Apesar de serem muito mais óbvias as críticas ao (suposto) socialismo e em concreto à únião soviética, não deixa de disparar para todos os lados e a deixar muitas farpas e indirectas ao capitalismo e aos governos ditos democráticos, ficando no ar (pelo menos para mim) uma conclusão definitiva (se é que isso é possível) das ideias do autor.  Mais do que isso, lança essa confusão de forma brilhante, carregada de ironia e de reviravoltas numa história que aparenta ser previsível, mas que consegue ser surpreendente até ao final.

Passou directamente para a prateleira dos meus favoritos.

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O Irmão Alemão

irmaoalemao

Tenho sentimentos mistos acerca deste livro. Por um lado, foi a obra do Chico Buarque que menos gostei de ler; por outro, nota-se que teve imenso prazer ao escrevê-la, e identifico-me bastante com esse egoísmo de escrever para si próprio.

Chico Buarque teve, “na vida real”, um irmão bastardo, fruto de uma breve temporada do seu pai na Alemanha, antes da Segunda Guerra. Essa descoberta preencheu o seu imaginário durante bastante tempo, e este livro mistura a busca real pela seu paradeiro com as diversas fantasias que congeminou para a sua história.

Apesar da toada obsessiva do narrador ser capaz de prender de forma eficaz a nossa atenção, há muitas partes que se estendem de forma aparentemente atabalhoada e forçada, sem os rasgos de génio que caracterizam a sua escrita e tão bem presentes estiveram no seu livro anterior.

Dou de barato que tudo isto soe diferente para ele, que viveu ou sonhou o que ali está relatado, e que nesse sentido esta obra seja importante no contexto do seu crescimento enquanto escritor.

Nota final e de louvar para referir que este é o primeiro lançamento direto em Portugal da editora brasileira Companhia das Letras. Aguardemos os próximos.

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A rainha Ginga

ginga

A rainha Ginga: E de como os africanos inventaram o mundo é um romance histórico baseado em parte do percurso de vida e de luta da rainha Ginga, provavelmente a figura mais marcante e emblemática da história de Angola, Angola essa que na altura ainda nem o era.

Ouvi uma entrevista do autor há tempos em que ele dizia que sempre quis escrever esta história e que provavelmente tornou-se escritor precisamente para um dia fazê-lo, mas que durante muito tempo não teve coragem para tal. Em boa hora a encontrou, pois se é efetivamente uma história grandiosa. Agualusa era e foi o escritor indicado para transpô-la em romance.

Além de se notar que foi feito um grande esforço de investigação para manter ao máximo a verosimilhança dos fatos (o que é complicadíssimo dado o período abordado), há sempre aquele salpico de misticismo por toda a parte tão próprio e tão único dos escritores africanos.

A aura de grandeza da Rainha, ou Rei, como ela preferiria, é ainda ampliada pelo facto da história não ser narrada pela própria, mas sim por um padre pernambucano (e jesuíta, e mestiço, e indígena, e muitas outras coisas mais) que serviu de seu secretário e tradutor, e também de tradutor e de elo de ligação entre nós, os leitores, e os diversos mundos que vamos descobrindo à medida que vamos avançando.

Fica a curiosidade de saber mais do percurso anterior e posterior da Rainha ao período retratado, bem como de diversos personagens com o qual o seu destino se entrelaçou. Antevejo bastantes devaneios na Wikipedia nos próximos tempos.

Deixo aqui uma das citações que mais me marcaram no livro, de tão simples parece, mas que tanta força carrega: “Há mentiras que resgatam e há verdades que escravizam”. Excelente leitura.

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A Estrada – Cormac McCarthy

The-road

Cormac McCarthy tem um nome tão irlandês quanto possível (é até nome de rei das antigas), mas é um puro texano e, julgando logo de caras por este livro, um dos maiores romancistas americanos.

Só tinha tomado contacto com a obra dele através do filme No Country For Old Men. Um filme bruto, mas a sua literatura consegue ser mais violenta ainda.

A Estrada segue o percurso de um pai e um filho em luta pela sobrevivência numa América (?) destruída por algum evento apocalíptico, que nunca chegamos a saber qual é.

Tudo em redor está destruído e destituído de vida e de cor, a brutalidade dos poucos homens que restam no mundo leva-os a matarem-se uns aos outros e até ao canibalismo, não há animais que tenham sobrevivido para alimentá-los, a natureza em volta está reduzida a cinzas…

O livro é praticamente todo feito de angústia e tensão, mas nos breves momentos em que os protagonistas lá vão encontrando uma casa abandonada para se abrigarem ou velhos e bolorentos frascos de conserva para mitigarem a fome, vamos vibrando e torcendo para que eles prossigam e nos presenteiem com mais um ou dois dias de felicidade em meio às trevas.

Tudo isto é contado praticamente num fôlego só, sem capítulos, e com os diálogos (brilhantes) entre pai e filho entranhados no meio do texto, sobressaindo o detalhe com que vai sendo descrita a habilidade do pai para utilizar tudo o que encontra a seu favor (à la Bear Grylls), mas principalmente a forma como vai tentando responder às dúvidas existenciais da criança, que sonha com um mundo que nunca conheceu.

Assombroso, engenhoso e muito, muito marcante.

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Para Seguir Minha Jornada – Almanaque Chico Buarque

chico buarque e tom jobim

Ao longo de vários anos, uma tia do Chico Buarque foi recolhendo todo o material que encontrava sobre o sobrinho e arquivando. Quando ela morreu, Miúcha, a irmã mais famosa de Chico, herdou o “baú” e repassou-o à jornalista e escritora Regina Zappa, que o digeriu e com ele fez este livro.

Leitura bastante agradável e indissociável da própria história brasileira dos anos 60 até aos dias de hoje, passando pelo nascimento da bossa nova, da jovem guarda e do tropicalismo, relembrando as atrocidades da ditadura militar que forçou o seu exílio, as raízes do PT e de Lula, e até coisas bem mais remotas, como a chegada de Arnau de Hollanda ao Brasil em 1535, 180 anos antes do primeiro Buarque.

Apesar de se tornar algo repetitivo em alguns pontos, contando as mesmas histórias ou opiniões de forma diferente, na maior parte do tempo é muito interessante viajar pelos diversos acontecimentos que o foram moldando enquanto artista e pessoa, e descobrindo também algumas facetas menos conhecidas.

Agora a parte menos positiva. Comprei este livro na versão ebook para o Kindle, até porque de outra forma ainda não está disponível em Portugal. Foi a primeira vez que fiquei algo desiludido com uma versão eletrônica, não só porque grande parte das imagens de recortes de jornais, documentos e afins são ilegíveis, mesmo com zoom, como tinha algumas falhas de edição que revelam descuido ou pressa. Não borra a pintura, mas enche o saco.

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A Gloriosa Família

O melhor presente que recebi no Natal passado foi este glorioso romance do mangole Pepetela, que retrata a saga da família de Baltazar Van Dum, um holandês radicado em Luanda durante o período de ocupação holandesa da cidade (entre 1642 e 1648).

Van Dum é comerciante de escravos e um tremendo diplomata/malandro, mantendo boas relações com os portugueses (por ser católico) e os “mafulos”, conseguindo sempre agradar a gregos e troianos através de artimanhas várias, suas ou dos onze filhos que constituem a sua prole, uns oficiais, outros “de quintal”, ou seja, feitos em escravas.

As peripécias da família vão sendo narradas por um curioso escravo, o que contribui para acentuar ainda mais as crendices e os elementos mitológicos que tanto aprecio nos escritores africanos, aqui num expoente de originalidade e destreza máxima.

Além da escrita prodigiosa, o livro triunfa sob o aspeto das lições de história que nos dá, visto que o que aprendemos na escola sobre o desenrolar dos acontecimentos nas ex-colónias portuguesas é escasso ou superficial.

Muito bom, !

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Jesusalém

 

“Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor no auge das suas capacidades criativas”, é o que diz na contracapa do último romance de Mia Couto, Jesusalém (Antes de Nascer o Mundo, no Brasil).  Não consigo reiterar a primeira parte da frase porque não li todas as suas obras e nem consigo me decidir entre este e Terra Sonâmbula, mas que está indiscutivelmente no auge das suas capacidades, está.

Silvestre Vitalício é um velho amargurado que, dada uma tragédia familiar, decide alhear-se do mundo levando consigo os seus dois filhos (Mwanito e Ntunzi), uma jumenta e um serviçal, fundando num povoado distante da sociedade uma nova terra, Jesusalém, onde dizia que Jesus haveria de regressar e se “descrucificar”.

O corte estabelecido entre Jesusalém e o “velho mundo” é de tal modo profundo que Silvestre alterou o seu nome e dos seus filhos, e indicou-lhes que o mundo terminara e eram eles os últimos sobreviventes. Impedia o mais novo de aprender a ler e escrever, e esconjurava tudo o que fossem resquícios de lembranças da sua antiga vida. O único que possuía autorização para cruzar as fronteiras de Jesusalém era o seu cunhado Aproximado, que de tempos a tempos abastecia-lhes de mantimentos.

Todo este mundo de ilusões é abalado pela presença de uma mulher portuguesa, que vem despertar ainda mais a curiosidade e a revolta das duas criançar, e reavivar os fantasmas que Silvestre pretendia enterrar.

O grande forte do livro é o tom poético (diria quase mágico) como Mwanito e o irmão vão amadurecendo e se questionando sobre o não-mundo onde enterram as suas infâncias, inventando emoções e lembranças e descascando aos poucos a complexa realidade que seu pai fabricou para se esconder. Outro ponto interessante é o modo como, não existindo mulheres em Jesusalém, a presença feminina não cessa de ser evocada e quase divina, materializada posteriormente pela portuguesa.

De brinde, o livro está povoado de excertos de belíssimos poemas no início de cada capítulo, (vários) de Sophia de Mello Breyner Andresen, Hilda Hilst, Adélia Prado e outras mais.

Fica pra ler.

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Estorvo

Continuando o meu roteiro literário inverso do Chico Buarque, li esta semana aquele que foi o seu primeiro romance, Estorvo.

Me prendeu mais que Benjamim e me entusiasmou menos que Leite Derramado. O protagonista, que não tem nome, nem bem vive nem morre, vagueia. Vagueia perdido, obsessivo não se sabe bem com o quê e contemplando a hipocrisia e a decadência da sociedade em que vive, da irmã e da mãe que o sustentam, da ex-mulher, dos ex-amigos, do ex-apartamento, enfim, tudo em sua história falhou ou foi perdido. Esse homem é o estorvo do mundo em que vive.

Resumido assim parece uma história deprimente de um vagabundo fracassado qualquer, mas o tom que é empregue à escrita além de pesado, é contraditório, conseguindo ser ao mesmo tempo desesperado e apático, além de dar a algumas das estórias que o compõem contornos de romance policial. Uma história estranha e atribulada, contada duma maneira completamente desprendida.

Sendo o segundo melhor que o primeiro e pior que o último (pelo meio ainda há Budapeste, que já li mas ainda não blogava), não é uma evolução linear, e nem o deveria ser; são uns altos e baixos de um escritor, não de um músico que decidiu se aventurar pela escrita: Chico Buarque é um escritor que, para mim, já conquistou o pleno direito de figurar entre os melhores da literatura brasileira.

Aguardo com expectativa a próxima obra.

Continuando o meu roteiro literário inverso do Chico Buarque, li esta semana aquele que foi o seu primeiro romance, Estorvo.

Me prendeu mais que Benjamim e me entusiasmou menos que Leite Derramado. O protagonista, que não tem nome, nem bem vive nem morre, vagueia. Vagueia perdido, obsessivo não se sabe bem com o quê e contemplando a hipocrisia e a decadência da sociedade em que vive, da irmã e da mãe que o sustentam, da ex-mulher, dos ex-amigos, do ex-apartamento, enfim, tudo em sua história falhou ou foi perdido. Esse homem é o estorvo do mundo em que vive.

Resumido assim parece uma história deprimente de um vagabundo fracassado qualquer, mas o tom que é empregue à escrita além de pesado, é contraditório, conseguindo ser ao mesmo tempo desesperado e apático, além de dar a algumas das estórias que o compõem contornos de romance policial. Uma história estranha e atribulada, contada duma maneira completamente desprendida.

Sendo o segundo melhor que o primeiro e pior que o último (pelo meio ainda há Budapeste, que já li mas ainda não blogava), não é uma evolução linear, e nem o deveria ser; são uns altos e baixos de um escritor, não de um músico que decidiu se aventurar pela escrita: Chico Buarque é um escritor que, para mim, já conquistou o pleno direito de figurar entre os melhores da literatura brasileira.

Aguardo com expectativa a próxima obra.

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Benjamim

Este, que foi o segundo livro escrito por Chico Buarque, não me entusiasmou particularmente. Estou fazendo o roteiro das produções literárias do Chico Buarque ao contrário, e dá para notar que enquanto escritor ele foi efectivamente evoluindo ao longo do tempo (como em Leite Derramado, de que já falei aqui).

Benjamim Zambraia é um ex-modelo fotográfico que vive obcecado com o passado e com a enigmática morte da mulher da sua vida, que entretanto se materializa numa jovem que conhece ao acaso, e que em tudo lhe lembra a outra. A história é narrada tanto sob a perspectiva de Benjamim quanto de uma câmera invisível que o personagem utiliza desde a adolescência, e da qual já não consegue distinguir o que é seu e o que é gravado, o que é passado e o que é presente.

Não chego a me fascinar com a história nem me compadecer da angústia de nenhum dos personagens principais do livro. É no entanto, bastante original e muito bem escrito, e consegue nos agarrar à leitura por aí,  ficando na retina parágrafos como este:

A contragosto, Ali saiu da padaria e foi conduzido pelo primo até uma rua escura, transversal. “Olha as putas”, disse o primo, olhando aquelas mulheres que fumavam, cada qual dona de um poste. Gargalhou até ver sua mãe, apoiada no terceiro poste da calçada esquerda, de piteira. Ainda tentou recusá-la, porque aquele vestido de lantejoulas não era dela, nem ele nunca vira sua mãe fumando, mas o primo olhava para ele e para a mãe ao mesmo tempo, e ria de um modo tão forçado, que a Ali só restou cerrar os punhos e partir para cima dele e chutá-lo e xingá-lo de veado. O primo não sentiu a violência das porradas, muito menos do insulto;  entortou uma perna sobre a outra, espetou o queixo com o indicador, depois armou um biquinho que condensou o seu buço, fazendo com que ele parecesse uma mocinha de bigodes negros. O primo gostou do insulto porque era veado mesmo, conforme Ali ficou sabendo tempos depois. Ali tinha então cinco anos e não sabia muito bem o que significava ser veado. Tampouco sabia o que fazia de errado uma puta, fora fumar no poste. Mas já tinha a certeza de que, no mundo inteiro, pior que veado, maconheiro, dedo-duro e tudo o mais, a pior situação na vida é ser um filho-da-puta.

Fica a curiosidade para assistir ao filme homónimo, que proporcionou a estreia da Cléo Pires como actriz, e logo num enredo pesadíssimo destes, com violação pelo meio e tudo o mais. Até é de esperar que, dada a narrativa, a coisa funcione melhor em ecrã. Fica pra pensar.

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The Rum Diary

Gosto muito quando tenho a oportunidade de ler um livro antes da sua adaptação cinematográfica, e neste caso isso aconteceu por pouco.

Tinha-o na prateleira há algum tempo, e acelerei a sua leitura assim que notei que The Rum Diary vai estrear no ano que vem, com Johny Depp mais uma vez à cabeça de um filme originário de um livro de Hunter S. Thompson, depois do alucinante Fear and Loathing in Las Vegas.

A história é relativamente simples e, como de costume, em parte baseada na experiência do próprio autor: Paul Kemp, um jornalista freelancer trintão que já percorreu meio-mundo sem conseguir encontrar o seu caminho, aterra em Porto Rico e consegue emprego num jornal de língua inglesa de meia-tigela, constantemente à beira do abismo. Tudo o que se segue são descrições da decadência, imoralidade e loucura que povoam o estilo de vida da ilha (e a mente do autor). O livro tresanda a álcool de uma ponta à outra, sempre narrado num ritmo frenético, tanto cativante e sarcástico quanto perturbador.

Acho estranho que tenha havido tanta relutância da parte do autor em publicar este livro (escrito em 1959, viu a luz do dia em 1998), dada a quantidade de talento (e de loucura) expressa em todas as suas páginas. De notar que só tinha 22 anos quando o escreveu, mas captou com uma grande mestria todo o pessimismo das suas personagens.

Na minha imaginação, este livro dá um grande filme. É de estranhar a ausência de Yeamon no casting listado no IMDB, dado ser uma das suas personagens principais, mas vou esperar para ver. Não conheço o trabalho deste Bruce Robinson, esperemos que não decepcione com este material brilhante nas mãos (ficava mais descansado com o Terry Gilliam a dar continuidade ao Fear and Loathing, mas fica pra pensar).

Gosto muito quando tenho a oportunidade de ler um livro antes da sua adaptação cinematográfica, e neste caso isso aconteceu por pouco.

Tinha-o na prateleira há algum tempo, e acelerei a sua leitura assim que notei que The Rum Diary vai estrear no ano que vem, com Johny Depp mais uma vez à cabeça de um filme originário de um livro de Hunter S. Thompson, depois do alucinante Fear and Loathing in Las Vegas.

A história é relativamente simples e, como de costume, em parte baseada na experiência do próprio autor: Paul Kemp, um jornalista freelancer trintão que já percorreu meio-mundo sem conseguir encontrar o seu caminho, aterra em Porto Rico e consegue emprego num jornal de língua inglesa de meia-tigela, constantemente à beira do abismo. Tudo o que se segue são descrições da decadência, imoralidade e loucura que povoam o estilo de vida da ilha (e a mente do autor). O livro tresanda a álcool de uma ponta à outra, sempre narrado num ritmo frenético, tanto cativante e sarcástico quanto perturbador.

Acho estranho que tenha havido tanta relutância da parte do autor em publicar este livro (escrito em 1959, viu a luz do dia em 1998), dada a quantidade de talento (e de loucura) expressa em todas as suas páginas. De notar que só tinha 22 anos quando o escreveu, mas captou com uma grande mestria todo o pessimismo das suas personagens.

Na minha imaginação, este livro dá um grande filme. É de estranhar a ausência de Yeamon no casting listado no IMDB, dado ser uma das suas personagens principais, mas vou esperar para ver. Não conheço o trabalho deste Bruce Robinson, esperemos que não decepcione com este material brilhante nas mãos (ficava mais descansado com o Terry Gilliam a dar continuidade ao Fear and Loathing, mas fica pra pensar).

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