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1984

Big Brother is watching you.

Ultimamente tenho tentado dedicar o meu tempo livre aos clássicos, tanto no que diz respeito ao cinema quanto à literatura, e este era um dos que estava na calha há bastante tempo.

Li a versão portuguesa traduzida pela Ana Luísa Faria e editada pela Antígona. Só depois de terminar a leitura é que me apercebi da idade do livro: foi publicado pela primeira vez em 1949, e não sei se isso torna ainda mais impressionante a capacidade visionária do George Orwell de manter uma história actual durante tanto tempo, ou simplesmente ilustra o quão pouco evoluímos em determinados aspectos. Infelizmente inclino-me para a última, pois acho que muitas das temáticas nele abordadas acabarão por ser tendências sempre actuais, nomeadamente o revisionismo e a manipulação da opinião pública, e a ganância e voracidade das máquinas do poder.

Apesar de serem muito mais óbvias as críticas ao (suposto) socialismo e em concreto à únião soviética, não deixa de disparar para todos os lados e a deixar muitas farpas e indirectas ao capitalismo e aos governos ditos democráticos, ficando no ar (pelo menos para mim) uma conclusão definitiva (se é que isso é possível) das ideias do autor.  Mais do que isso, lança essa confusão de forma brilhante, carregada de ironia e de reviravoltas numa história que aparenta ser previsível, mas que consegue ser surpreendente até ao final.

Passou directamente para a prateleira dos meus favoritos.

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Viva o Povo Brasileiro

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Os últimos acontecimentos no Brasil podem fazer isto parecer um título irónico, mas é simplesmente o nome de um excelente romance de João Ubaldo Ribeiro, de 1984, que percorre cerca de quatro séculos de história do país, desde a ocupação portuguesa (a narrativa começa em 1647) até final dos anos 1970.

Ubaldo Ribeiro dizia que uma das principais motivações para escrever um romance tão longo foi ter enraizado uma máxima que o seu pai costumava repetir: “livro que não fica em pé sozinho, não presta”.

Os factos reais da história do Brasil servem de pano de fundo para as estórias fictícias de diversas personagens e famílias, que se interligam umas às outras ao longo dos séculos das formas mais mirabolantes imagináveis.

Não há uma personagem principal, nem há apenas uma perspectiva ou uma verdade; há a verdade dos portugueses e a dos holandeses, a dos indígenas e a dos negros, que às tantas se misturam e vão mostrando as características que é costume associar ao “jeitinho brasileiro”, descascado e satirizado aqui de forma genial pelo autor.

Essa multiplicidade narrativa permite também olhar para a história do país sobre uma perspectiva bastante diferente daquela que aparece nos livros clássicos; o genial capítulo da Batalha de Tuiuti, por exemplo, em que é descrita a intervenção dos orixás do candomblé afro-brasileiro na vitória, apesar de ser pura fantasia, talvez se aproxime mais da verdade do que muitas descrições oficiais, na medida em que exalta o protagonismo dos afro-descendentes brasileiros, tantas vezes desconsiderados nos relatos oficiais.

Vale cada uma das suas 846 páginas.

Ilustração Edições Nelson de Matos

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O Irmão Alemão

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Tenho sentimentos mistos acerca deste livro. Por um lado, foi a obra do Chico Buarque que menos gostei de ler; por outro, nota-se que teve imenso prazer ao escrevê-la, e identifico-me bastante com esse egoísmo de escrever para si próprio.

Chico Buarque teve, “na vida real”, um irmão bastardo, fruto de uma breve temporada do seu pai na Alemanha, antes da Segunda Guerra. Essa descoberta preencheu o seu imaginário durante bastante tempo, e este livro mistura a busca real pela seu paradeiro com as diversas fantasias que congeminou para a sua história.

Apesar da toada obsessiva do narrador ser capaz de prender de forma eficaz a nossa atenção, há muitas partes que se estendem de forma aparentemente atabalhoada e forçada, sem os rasgos de génio que caracterizam a sua escrita e tão bem presentes estiveram no seu livro anterior.

Dou de barato que tudo isto soe diferente para ele, que viveu ou sonhou o que ali está relatado, e que nesse sentido esta obra seja importante no contexto do seu crescimento enquanto escritor.

Nota final e de louvar para referir que este é o primeiro lançamento direto em Portugal da editora brasileira Companhia das Letras. Aguardemos os próximos.

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A rainha Ginga

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A rainha Ginga: E de como os africanos inventaram o mundo é um romance histórico baseado em parte do percurso de vida e de luta da rainha Ginga, provavelmente a figura mais marcante e emblemática da história de Angola, Angola essa que na altura ainda nem o era.

Ouvi uma entrevista do autor há tempos em que ele dizia que sempre quis escrever esta história e que provavelmente tornou-se escritor precisamente para um dia fazê-lo, mas que durante muito tempo não teve coragem para tal. Em boa hora a encontrou, pois se é efetivamente uma história grandiosa. Agualusa era e foi o escritor indicado para transpô-la em romance.

Além de se notar que foi feito um grande esforço de investigação para manter ao máximo a verosimilhança dos fatos (o que é complicadíssimo dado o período abordado), há sempre aquele salpico de misticismo por toda a parte tão próprio e tão único dos escritores africanos.

A aura de grandeza da Rainha, ou Rei, como ela preferiria, é ainda ampliada pelo facto da história não ser narrada pela própria, mas sim por um padre pernambucano (e jesuíta, e mestiço, e indígena, e muitas outras coisas mais) que serviu de seu secretário e tradutor, e também de tradutor e de elo de ligação entre nós, os leitores, e os diversos mundos que vamos descobrindo à medida que vamos avançando.

Fica a curiosidade de saber mais do percurso anterior e posterior da Rainha ao período retratado, bem como de diversos personagens com o qual o seu destino se entrelaçou. Antevejo bastantes devaneios na Wikipedia nos próximos tempos.

Deixo aqui uma das citações que mais me marcaram no livro, de tão simples parece, mas que tanta força carrega: “Há mentiras que resgatam e há verdades que escravizam”. Excelente leitura.

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A Estrada – Cormac McCarthy

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Cormac McCarthy tem um nome tão irlandês quanto possível (é até nome de rei das antigas), mas é um puro texano e, julgando logo de caras por este livro, um dos maiores romancistas americanos.

Só tinha tomado contacto com a obra dele através do filme No Country For Old Men. Um filme bruto, mas a sua literatura consegue ser mais violenta ainda.

A Estrada segue o percurso de um pai e um filho em luta pela sobrevivência numa América (?) destruída por algum evento apocalíptico, que nunca chegamos a saber qual é.

Tudo em redor está destruído e destituído de vida e de cor, a brutalidade dos poucos homens que restam no mundo leva-os a matarem-se uns aos outros e até ao canibalismo, não há animais que tenham sobrevivido para alimentá-los, a natureza em volta está reduzida a cinzas…

O livro é praticamente todo feito de angústia e tensão, mas nos breves momentos em que os protagonistas lá vão encontrando uma casa abandonada para se abrigarem ou velhos e bolorentos frascos de conserva para mitigarem a fome, vamos vibrando e torcendo para que eles prossigam e nos presenteiem com mais um ou dois dias de felicidade em meio às trevas.

Tudo isto é contado praticamente num fôlego só, sem capítulos, e com os diálogos (brilhantes) entre pai e filho entranhados no meio do texto, sobressaindo o detalhe com que vai sendo descrita a habilidade do pai para utilizar tudo o que encontra a seu favor (à la Bear Grylls), mas principalmente a forma como vai tentando responder às dúvidas existenciais da criança, que sonha com um mundo que nunca conheceu.

Assombroso, engenhoso e muito, muito marcante.

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O Melhor Papa do Mundo

Se há dias disse que o melhor jogador de futebol do mundo era Português, tenho que dar a mão à palmatória em relação ao atual papado: o melhor papa do mundo é Argentino. Quem diria?

Nunca nutri qualquer tipo de simpatia pela Igreja Católica. Pelo contrário. Acho-a uma instituição retrógrada, opressora, corrupta e que no somatório da história, causou muito (mas muito) mais dano à humanidade do que bem. Não casei pela igreja nem vou batizar a minha filha sem que isso seja sua vontade expressa.

Fiquei no entanto impressionado, comovido até, com o que li por alto do último documento publicado pelo Vaticano, a Exortação Evangélica, que reflete sobre as reformas planeadas para a igreja.

Gostei nomeadamente de:

Alguns simplesmente deleitam-se em culpar os pobres e os países pobres de seus próprios males, com generalizações indevidas, e têm como objetivo encontrar a solução em uma ‘educação’ que os tranquilize e os converta em criaturas domesticadas e inofensivas. Isso se torna ainda mais irritante se os excluídos veem crescer esse câncer social que é a corrupção em muitos países, governos, empresas e instituições, seja qual for a ideologia política dos governantes.

Assim como o mandamento de ‘não matar’ coloca um limite claro para garantir o valor da vida humana, hoje temos de dizer ‘não a uma economia de exclusão e desigualdade’. Essa economia mata. (…) Hoje, tudo está dentro do jogo e da competitividade, onde o forte come o fraco. Como resultado, grandes massas da população são excluídas e marginalizadas: sem emprego, sem horizontes”. (…)

“Os excluídos não são explorados, mas resíduos, excedentes”

Um homem nessa posição assumindo de forma tão frontal e vincada esse tipo de pensamento? Um líder de um rebanho incitando os carneiros a, por uma vez, pensarem?

Ainda são palavras, apenas, mas não são palavras pequenas.

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Cemitério de Pianos

Demorei demais para ler um livro do José Luís Peixoto, e não precisaria ler mais para dizer que este Zé é dos melhores escritores da sua geração, da atualidade e de toda a língua portuguesa.

Cemitério de Pianos parte de uma história real, a de Francisco Lázaro, maratonista português que desfalece em Estocolmo depois de untar o corpo com sebo, e magica todo um intrincado e recursivo enredo familiar à sua volta, todo ele a saltar constantemente entre a leveza da vida e o peso da morte (ou a leveza da morte e o peso da vida). Confudem-se narradores, tempos e histórias, mostrando que no fim de contas, tudo se mistura ou se repete.

A originalidade da história é complementada com a originalidade do estilo da escrita do artista, que é arcaica sendo moderna, cheia de jogos de linguagem que tanto nos deixam desorientados quanto nos desarmam, culminando numa prosa comovente, de tão bela.

Fica pra ler mais.

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Aprendendo

Na semana passada obtive o ccp (antigo cap), no centro de formação Nova Etapa. No geral o curso foi bastante positivo, sendo de destacar o talento e a dedicação do excelente formador Nuno Silva, e as diversas dicas que foi dando nas entrelinhas. Deixo aqui um excelente texto de Agostinho da Silva com que ele nos brindou, na despedida:

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus.

Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence.

São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.”

Fica pra pensar.

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Para Seguir Minha Jornada – Almanaque Chico Buarque

chico buarque e tom jobim

Ao longo de vários anos, uma tia do Chico Buarque foi recolhendo todo o material que encontrava sobre o sobrinho e arquivando. Quando ela morreu, Miúcha, a irmã mais famosa de Chico, herdou o “baú” e repassou-o à jornalista e escritora Regina Zappa, que o digeriu e com ele fez este livro.

Leitura bastante agradável e indissociável da própria história brasileira dos anos 60 até aos dias de hoje, passando pelo nascimento da bossa nova, da jovem guarda e do tropicalismo, relembrando as atrocidades da ditadura militar que forçou o seu exílio, as raízes do PT e de Lula, e até coisas bem mais remotas, como a chegada de Arnau de Hollanda ao Brasil em 1535, 180 anos antes do primeiro Buarque.

Apesar de se tornar algo repetitivo em alguns pontos, contando as mesmas histórias ou opiniões de forma diferente, na maior parte do tempo é muito interessante viajar pelos diversos acontecimentos que o foram moldando enquanto artista e pessoa, e descobrindo também algumas facetas menos conhecidas.

Agora a parte menos positiva. Comprei este livro na versão ebook para o Kindle, até porque de outra forma ainda não está disponível em Portugal. Foi a primeira vez que fiquei algo desiludido com uma versão eletrônica, não só porque grande parte das imagens de recortes de jornais, documentos e afins são ilegíveis, mesmo com zoom, como tinha algumas falhas de edição que revelam descuido ou pressa. Não borra a pintura, mas enche o saco.

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A Gloriosa Família

O melhor presente que recebi no Natal passado foi este glorioso romance do mangole Pepetela, que retrata a saga da família de Baltazar Van Dum, um holandês radicado em Luanda durante o período de ocupação holandesa da cidade (entre 1642 e 1648).

Van Dum é comerciante de escravos e um tremendo diplomata/malandro, mantendo boas relações com os portugueses (por ser católico) e os “mafulos”, conseguindo sempre agradar a gregos e troianos através de artimanhas várias, suas ou dos onze filhos que constituem a sua prole, uns oficiais, outros “de quintal”, ou seja, feitos em escravas.

As peripécias da família vão sendo narradas por um curioso escravo, o que contribui para acentuar ainda mais as crendices e os elementos mitológicos que tanto aprecio nos escritores africanos, aqui num expoente de originalidade e destreza máxima.

Além da escrita prodigiosa, o livro triunfa sob o aspeto das lições de história que nos dá, visto que o que aprendemos na escola sobre o desenrolar dos acontecimentos nas ex-colónias portuguesas é escasso ou superficial.

Muito bom, !

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