Cinemadas

Os meus filmes de 2017

Vergonhosamente, este foi um ano em que eu até vi bastante cinema (ainda que muito dele em casa e nos transportes públicos), mas só agora me apercebi que não reflecti isso aqui no blog como de costume, não tendo escrito um único artigo de cinema dos filmes deste ano!

Para fechar o ano em redenção e em retrospectiva, estes foram os filmes deste ano de que mais gostei, uma mistela de géneros e feitios em ordem aleatória:

Coco

O melhor filme da Pixar desde, sei lá… Wall-e? Nunca desgosto verdadeiramente dos filmes deles, mas há muito tempo que não me entravam na cabeça de forma tão vincada. Agarraram num imaginário forte (dia de los muertos/folclore mexicano) e deram-lhe uma abordagem colorida, imaginativa e muito, muito divertida. Tem a vantagem de ter sido uma experiência de cinema partilhada em família e de os pequeninos também terem ficado deslumbrados. La Llorona tem feito sucesso no nosso carpool karaoke, dia sim/dia sim.

Split

É do ano passado, mas só vi há pouco tempo e entra aqui na lista na mesma onda do anterior: mais um comeback do c******. Uma performance brutal do McAvoy em cada uma das 20 e tal personalidades que interpreta e um ambiente de angústia permanente a demonstrar que as notícias sobre a morte artística do M. Night Shyamalan eram manifestamente exageradas. A pequena surpresa no final é a cereja no topo do bolo.

Dunkirk

Este felizmente vi mesmo no cinema, pois é uma experiência que vale muito a pena ter no grande ecrã; qualquer uma das perspectivas com que a história vai sendo desfiada (terra, ar, mar) é bastante imersiva, e a forma como o realizador vai saltando entre elas é de mestre, como já é da praxe. Outra lição é a forma como consegue condensar tanta história e de forma tão intensa em pouco mais de hora e meia de filme, uma raridade nos dias que correm, em que o esticar da corda é a regra.

Logan

Os filmes de super-heróis já chateiam de tão iguais que são uns aos outros; este Logan vai contra a corrente, assumindo toda a negritude que a personagem carrega e enveredando numa espiral bastante crua de decadência, até à esperada redenção. Provavelmente o melhor dos milhentos filmes em que o Hugh Jackman interpretou Wolverine e uma excelente despedida (?) deste personagem.

Baby Driver

B A B Y… Baby! A originalidade e a audácia deste filme é notória; é um filme de acção que é quase um musical, dada a preponderância que a música assume no desenrolar da história e a forma como esta está embebida e sincronizada no seu protagonista. Acho que teve sorte de ter saído antes das polémicas do senhor Kevin Spacey e não ter tido a estreia manchada por isso, porque a história até era propícia a especulações.

Get Out

Este foi para mim a maior surpresa, pois desta lista foi aquele para o qual partia com menores expectativas. Uma excelente abordagem crítica de fundo às relações inter-raciais e tensões inerentes, num thriller que consegue a façanha rara de durante grande parte do tempo ser inquietante e ao mesmo tempo ter bons momentos cómicos. Não conhecia o protagonista, que tem uma performance de enaltecer, no meio de um conjunto de excelentes interpretações por parte de quase todo o elenco. Nota também para a música que abre, fecha e que dá sinais de alerta ao longo do filme, Sikiliza Kwa Wahenga; aconselho a ouvi-la e a procurar o seu significado apenas depois de ver o filme, senão perde o impacto.

Desilusões:

T2 Trainspotting

Epá, valeu a pena na mesma ser feito, foi fixe ver aquela gente toda junta passado tanto tempo, mas não, não chega lá.

Blade Runner 2049

Também valeu a pena ser feito e está num patamar bastante superior do filme acima; visualmente é espectacular, mas não é, nem de perto nem de longe, tão arrebatador quanto o primeiro. Pode ser que envelheça bem, visto que o primeiro não foi muito bem recebido na altura.

 

Ainda preciso ver (pelo menos):

  • Phantom Thread
  • The Square
  • Alien: Covenant
  • Gabriel e a Montanha
  • It
  • Lucky (RIP, Harry Dean Stanton)
  • Okja
  • Brawl in Cell Block 99
  • The Disaster Artist
  • Mother!

PS: Não, Star Wars não é a minha cena.

 

 

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Cinemadas

La La Land

Escrevo sobre este filme poucas horas antes de se confirmar se ganhará ou não uma catrefa de óscares, mas é mera coincidência.

Já referi aqui anteriormente o meu absoluto desprezo por esses prémios, e também já falei sobre a minha paixão por musicais, que tipicamente só é saciada com o recurso à revisitação de obras mais antigas.

Este filme em particular encheu as minhas medidas, não só por ter bastante qualidade no que à musicalidade e à poesia diz respeito, mas por diferir de outras obras mais recentes do género na medida em que não envereda muito pela vertente da megalomania; apesar de começar com uma cena bastante grandiloquente, tecnicamente impressionante e com milhentos figurantes, na maior parte do tempo prima pela simplicidade e pelo destaque ao talento dos protagonistas.

Tenho visto muita gente reclamar de todo o hype à volta do filme, e creio que a indignação é justificada; percebo que quem não goste de musicais não se deixe entusiasmar, e compreendo que o ritmo inicialmente morno não seja para toda a gente, mas comigo funcionou e foi me prendendo de mansinho até me arrebatar completamente. A prova final é as músicas ainda não me terem saído da cabeça, quase um mês depois de o ter visto. Sim. Sou desses.

Numa nota mais pessoal, também soube especialmente bem após não sei quanto tempo curtir um verdadeiro cineminha romântico com a mulher que amo!

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Cinemadas, Paternidade

À Procura de Dory

A minha primeira ida ao cinema foi tão memorável que sou o único da família a lembrar-me dela, apesar de ter, na altura, mais ou menos a idade que a Carolina tem agora. Fui ver os Tartarugas Ninja, de 1990, ainda no Brasil. Lembro que quando entrei na sala fiquei absolutamente embasbacado com o tamanho do ecrã, e que já na altura odiei o facto da minha mãe ter o péssimo hábito de falar muito durante todo o filme.

Faço esta introdução porque é a primeira vez que escrevo aqui sobre uma ida ao cinema em que o filme em si assume um papel secundário; o protagonismo aqui vai todo para o momento pelo qual eu esperava ansiosamente há mais de três anos: o primeiro contacto da Carol com a magia do cinema.

Não que o filme não seja bom, porque apesar de jogarem mais ou menos pelo seguro e a coisa acabar por pender mais para a rentabilização do franchise do que para o brilhantismo, a Pixar não desilude e consegue cumpre bastante bem o papel de entreter-nos, acrescentando pelo meio uma personagem que rouba completamente o protagonismo dos ditos principais: o polvo Hank.

Voltando à Carol, ainda antes dela nascer já eu imaginava como seria essa primeira vez no cinema, e se ia conseguir incutir-lhe ou não essa paixão. Obviamente que esta segunda parte ainda está por comprovar, mas valeu bastante a pena e espero que também lhe tenha ficado na retina.

Inicialmente ela quase nem pestanejava, num misto de perplexidade e desconfiança, motivada principalmente pelo turbilhão de trailers com que se deparou e que a levaram a perguntar mais que uma vez, quase em desespero: “então e a Dory?”.

Um dos nossos medos era que ela nem sequer aguentasse o filme até ao fim, mas apesar de a determinada altura ter ficado agitada, com o intervalo a coisa acalmou e trouxe ainda mais contentamento; à medida que o filme foi chegando ao clímax, ela foi se entusiasmando cada vez mais, dando aquelas sorrisos bem rasgados acompanhados de olhares de aprovação que confirmaram o sucesso da coisa e me fizeram ganhar o dia.

Agora é continuar a alimentar a chama e, mais uma vez, esperar ansiosamente que chegue também a vez do Francisco.

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Hateful Eight

Chega a ser um ritual. Surgem os primeiros rumores de um filme novo do Tarantino; vou controlando o desenvolvimento da coisa com atenção, acompanho tudo o que vai sendo revelado e confirmado, e fico expectante e excitado até à estreia. Sei que muito provavelmente vou gostar do que vou ver, e eventualmente vou até chegar ao ponto de venerar o resultado.

E assim foi com Hateful Eight, com a excitação acrescida pela ameaça de cancelamento por disponibilização indevida do script antes do tempo, e posterior volte-face.

Este Western pode não ser (difícil decidir) um dos seus melhores filmes, mas assume com certeza um lugar de bastante mérito na filmografia do autor, sendo até bastante inovador em diversos aspectos.

O mais evidente é a banda-sonora. O corte e costura de músicas de outras referências é aqui substituído por uma banda-sonora dedicada e original de ninguém menos que o Senhor Ennio Morricone, que já tinha estado muito presente no universo de Tarantino, mas nunca de forma concertada e intencional. Suspeito que seja algo que Tarantino já quisesse fazer há muito tempo e finalmente tenha conseguido concretizar, e o resultado é muito, muito positivo.

Este “pequeno” facto confere ao filme um ambiente bastante intenso e surpreendentemente diferente do que seria de esperar de um western com Morricone ao fundo; mais carregado, mais negro, algo que sem imagem talvez associássemos mais a um filme de terror do que a um filme de cowboys.

Outra questão foi o equipamento de filmagem escolhido; em vez de uma modernice digital vocacionada para os IMAX desta vida, o filme foi rodado com a clássica Panavision 70 mm. A beleza cinematográfica alcançada é crua e brutal, tanto nos grandes planos panorâmicos (e o filme é repleto deles) quanto nos pequenos closes que se vão fazendo à medida que vamos entrando nas personagens.

Finalmente, as personagens. A forma como estas vão sendo apresentadas, reveladas e lentamente dissecadas, deixando para o clímax final o desvendar das verdadeiras intenções de cada uma delas, é simplesmente brilhante, principalmente por ser feita de forma bastante subtil, e reduzindo ao mínimo indispensável os longos diálogos que costumamos encontrar nos seus filmes.

Tudo isto mostra que o homem está em forma, segue criativo e continua a alargar o leque de truques que tem na manga. Agora é só esperar que não se passem muitos anos até que nos surpreenda novamente.

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Entre Abelhas

Entre Abelhas é um filme realizado pelo Ian SBF e escrito por ele e pelo Fábio Porchat, que também é o protagonista.

Sendo eles duas das cabeças do Porta dos Fundos, seria de esperar uma comédia desgarrada ao estilo daquilo que a que o grupo nos tem habituado, mas este é um projecto pessoal que foge bastante desse registo.

Na verdade é um drama que acaba por se tornar divertido porque eles não conseguem deixar de ser naturalmente engraçados, mas nota-se que o objectivo principal não era esse.

O personagem central é Bruno, um editor de vídeo que acaba de se divorciar e de repente começa simplesmente a deixar de ver as pessoas que o rodeiam, a pouco e pouco. Tudo o resto gira à volta da sua tentativa desesperada de perceber e tentar contrariar o que está acontecendo.

Não é um grande filme, mas é uma história diferente, divertida e muito bem contada.

 

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Big Eyes

Um filme diferente de Tim Burton, por diversos motivos. Não há repetição dos seus actores e actrizes fetiche, não há um ambiente gótico e de cores sombrias, e até é um argumento baseado numa história real.

Não é, contudo, uma história real qualquer; é uma história boa demais para não ser contada por alguém como Burton.

Durante os anos 50 e 60, uma série de quadros invulgares de crianças com olhos gigantes fez um sucesso estrondoso. Os quadros eram assinados por Walter Keane, mas na realidade quem os pintava era a sua mulher Margaret, prisioneira da voracidade comercial do seu marido e refém da sua própria arte durante muito tempo.

O que acabei de dizer acima parece um grande spoiler, mas está presente no próprio trailer e não diminui em nada a experiência do filme, cujo grande mérito é mostrar toda esta realidade quase como se de um conto se tratasse, indo do sonho cor-de-rosa com que Walter envolve Margaret de início, à beira da loucura em que ambos mergulham à medida que a mentira se adensa.

Longe de ser brilhante, é impecável e eu gostei bastante. Até da musiquinha da chata da Lana del Rey eu gostei.

Bateu uma vontade imensa de ver um filme dele sobre os quadros do Menino da Lágrima!

 

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Whiplash

whiplash

Não tinha reparado que este filme estava nomeado para os Óscares, mas todo e qualquer reconhecimento que venha a ter é merecido.

Um jovem baterista entra num reputado conservatório musical com o intuito de ser o melhor músico da sua área. Esse desejo é exponenciado por um professor implacável e obsessivo, que o leva a ultrapassar todos os seus limites físicos e psicológicos de forma a tentar alcançar o patamar que pretende.

Apesar do filme gravitar à volta do personagem principal, a sombra perturbadora do mentor paira sobre este a todo o momento, num trabalho simplesmente perfeito dos dois atores.

Assim como a premissa é simples, também o é a sua execução, impecável em todos os aspectos. Em crescendo, o ritmo frenético da bateria de Andrew guia o filme e o espectador até um clímax final absolutamente brutal.

Whiplash!

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Cinemadas

Canais do Tube #2 – Troma Movies

yetigaylovestory

A Troma é uma produtora de filmes séries B que anda aí desde 1974, quando Lloyd Kaufman e Michael Hertz concretizaram o seu sonho de criar uma produtora independente e com liberdade total para espalhar sangue e entranhas pelos ecrãs de espectadores incautos.

Mais que isso, o objetivo da Troma nunca foi simplesmente o do lucro fácil, mas sim deixar verdadeiramente uma marca no seu género.

Provando que é diferente, há cerca de dois anos a Troma começou a disponibilizar de forma integral e gratuita no seu canal oficial do Youtube centenas de filme do seu espólio, para gáudio dos fãs.

Não tenho tempo (nem tanta devoção) para ver a maior parte deles, mas só de ler alguns títulos que aparecem na sua atividade já fico deliciado com a criatividade bizarra:

YETI: A Gay love story

Farts of Darkness

Buttcrack!

Surf Nazis Must Die

A Nymphoid Barbarian In Dinosaur Hell

Sempre que se sentirem em baixo, vão ao canal da Troma e escolham um filme aleatoriamente. De nada.

 

 

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Cinemadas

The Wolf of Wall Street

Tendo o Martin Scorcese uma história destas nas mãos, o seu ator fetiche a protagonizar e sem uma grande produtora a censurar a depravação que esta envolve, este filme não tinha como correr mal.

Sexo, drogas e Wall Street, sendo Wall Street apenas um veículo e a parte menos importante da equação. O foco principal é a ganância humana e a forma como o dinheiro pode corromper e transformar o ser humano, sendo o ser humano no caso Jordan Belfort, um corretor da bolsa que começou por fazer dinheiro com negócios envolvendo transações de ações de valor duvidoso, engrupidas através do seu estilo comercial hipnotizante e agressivo.

Inicialmente confinadas a essas acções de baixo valor (Penny Stocks), a certa altura as artimanhas de Belfort dão o salto para Wall Street e são extrapoladas para quantias estratosféricas, gerando uma fortuna para si própria e para a sua empresa.

A partir daí é o descambar total; drogas e putaria a torto e a direito, a todo o momento e instante, e um sentimento de impunidade e de que não há limites para aquilo que conseguiam alcançar.

Esse estado de espírito é incutido na montagem, injetando uma adrenalina (e até uma filmagem “turva” impagável nos momentos de maior moca) quase constante nas quase três horas que compõem o filme, até, claro, declínio final.

O filme pode ser acusado de ser imoral ou amoral por culminar com um final “feliz” para o bandido, mas não faz mais que mostrar a realidade e um relato cru do que se passou. Mais ainda, se formos pensar bem no assunto, este é apenas um dos casos que veio a público e que sofreu algumas consequências; imaginem-se todos os outros que ocorreram e continuam a ocorrer e a gerar buracos…

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Barrigadas, Cinemadas

Os Quindins de Iaiá

Ontem minha amada se lembrou de fazer quindins. Maravilhosos como não podiam deixar de ser, me adoçaram mas deixaram nela um amargo de boca, porque estou até agora cantando “Os quindins de iaiá”. As palavras dela foram exatamente “nunca mais faço isso”. Se arrependimento matasse…

O filme desse vídeo acima é o The Three Caballeros, “A Caixinha de Surpresas” em Portugal e “Você já foi à Bahia?” no Brasil. Tive uma cassete VHS com esse filme que gastei quase até à exaustão quando era pequeno. Aguardo ansiosamente que a Carol cresça mais um bocado para repetir mais umas milhentas visualizações.

Obrigado me love, pelo doce e pela nostalgia gostosa.

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