Andanças, Paternidade

Andar de avião com crianças

kids flying airplane

É uma questão que me colocam e que vejo falada na Internet com bastante frequência: como é andar com um bebé, de avião? Mesmo que não perguntassem, basta ver a cara de pânico com que os passageiros à nossa volta olham para nós quando chegamos com a Carolina para perceber que é um assunto delicado.

Tenho alguma autoridade para falar sobre isso, pois já voei com crianças de 3, 4, 5 até 17 meses, em voos de meia, 2, 3, 4 e 10 horas. Obviamente essas “crianças” são sempre a mesma, mas em diferentes etapas de desenvolvimento, o que faz toda a diferença.

A primeira nota que faço é que tudo o que vou escrever aqui é para o nosso exemplo em particular e, como em tudo o que diga respeito a crianças, cada caso é um caso e aquilo que eu vou dizer pode não servir para nada com outras crianças. Mas creio que já ajuda ter uma base de comparação.

O meu primeiro conselho é: nada temam. Não há qualquer contra-indicação médica que impeça uma criança de voar, e qualquer doença que lhe aflija em viagem será, na maior parte dos casos, de fácil resolução em qualquer parte. É sempre bom estarmos munidos de termómetro, paracetamol, etc, mas esses itens existem em todo o mundo.

Segundo conselho: aproveitem. Na maior parte das companhias aéreas os descontos “a sério” para crianças só acontecem até aos dois anos de idade,  a partir daí pagam tanto ou quase tanto como um adulto. Não é preciso ser muito bom em matemática para ver que o preço de tirar férias no estrangeiro dispara drasticamente.

Daquilo que é a minha experiência, quanto mais a criança cresce nesta fase, mais complicado se torna viajar. Com dois a quatro meses sente-se bastante confortável no colo, e a coisa dá-se com relativa facilidade. Quando começa a crescer, gatinhar, andar, tornar-se mais ativa e mais curiosa com o que lhe rodeia, é mais difícil mantê-la sossegada durante horas.

Nesse sentido, aquilo que melhor funciona connosco é… tentar que ela durma. Sempre que possível, tentamos conjugar os voos com horários que sejam compatíveis com a hora da soneca dela, ou então o mais cedo possível; quando ela acorda mais cedo que o costume, o balanço do avião funciona como um soporífero que é tiro e queda. Em voos de longo curso, os voos overnight são a aposta. Se até nós nos cansamos rapidamente de estar encurralados tantas horas num avião, imaginem uma criança. Durmam!

Quando não há forma de conjugar os horários ou de conseguir que ela adormeça, há que fazê-la sentir-se o mais à vontade possível. Levar roupa confortável e que dê para adequar facilmente a qualquer temperatura (os ar-condicionados variam), levar alguns brinquedos do seu interesse para mantê-la distraída (os menos barulhentos possíveis para não incomodar os passageiros em pânico) e, claro, ir munido de mantimentos para mantê-la alimentada e hidratada (que também funciona como distração).

Relativamente a essa parte da alimentação/hidratação e às normas de segurança vigentes nos aeroportos atualmente: comida sólida passa à vontade pela segurança, os líquidos… varia. Tipicamente um passageiro só pode levar líquidos em embalagens de até 100ml na sua bagagem de mão, mas viajando com crianças há tolerância para isto. Essa tolerância pode é ser mais ou menos estrita consoante o aeroporto em que estejamos. Há aeroportos em que os seguranças vêem a criança e deixam passar à vontade, há outros em que levam os líquidos da criança para uma máquina especial à parte, outros ainda em que obrigam os pais a provar os líquidos para demonstrar que não pretendem matar ninguém com eles…

O que fazíamos quando a Carolina era mais pequena e bebia leite em pó era levar um termo vazio, e pedir nos restaurantes da zona de embarque para encher com água fervida; chegando ao avião e à hora da fome era só misturar. Poupava-nos tempo e paciência, e evitava também termos que pedi-lo no avião, às hospedeiras, pois beber água no avião não é recomendável (a não ser que venha duma garrafa selada, claro).

Se tudo isto falhar, e a criança fizer uma birra do tamanho do mundo durante o voo (o que também já aconteceu por estes lados), é manter a calma, respirar, apelar à criatividade, e esperar. O voo não dura para sempre, e a viagem há-de ter sempre momentos bem melhores para relevar esses percalços.

Fly safe.

photo credit: dolanh via photopin cc

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Andanças

Cliffs of Moher

Cliffs of Moher

Hoje foi dia do pai aqui na Irlanda e está acontecendo uma heatwave por aqui, que é como quem diz toda a temperatura que esteja acima dos 20 graus centígrados.

Para “comemorar” fomos conhecer um dos cartões de visita e quiçá o local mais bonito da República da Irlanda, o conjunto de falésias à beira-mar plantadas conhecidas como Cliffs of Moher, do outro lado da ilha, no condado de Clare. Ao longo dos seus 8 km de extensão, além das falésias podemos ver a baía de Galway, as montanhas de Connemara e as Aran Islands, estas últimas visitáveis de barco e onde quase só se fala Irlandês.

A região é efetivamente belíssima e o único senão é que, como ponto turístico reconhecido, está sempre repleto de gente, mas com um bocado de paciência e vontade de caminhar, dá para desfrutar da sua beleza, à vontade e com prazer.

Indo de carro e utilizando o estacionamento do Cliffs of Moher Experience (não há outra alternativa próxima) é cobrado um bilhete de 6€ por pessoa (gratuito para as crianças), mas há um truque: basta o motorista descarregar os restantes passageiros na entrada, um pouco mais atrás, e ir estacionar sozinho, que só paga um bilhete. Fica a dica.

Dormimos em Ennis, típica vila irlandesa, e a caminho de lá, na auto-estrada que liga Dublin a Limerick paramos numa estação de serviço chamada… Barack Obama Plaza. Sucede que de Moneygall partiu em 1850 para Nova Iorque um irlandês chamado Falmouth Kearney, nada menos que o tataravô do atual presidente Americano, que já lá esteve de visita bebendo Guinness e tudo. De lá para cá abriram esta estação de serviço e descerraram uma placa à entrada da vila assinalando-a oficialmente como “Barack Obama Ancestral Village”.

Um passeio excelente, com bastante que fica por explorar.

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Andanças, Pátria que me pariu

Brasil

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Vou deixar para depois a componente turística da nossa última viagem e descarregar parte do que ela despertou em mim, a nível sentimental e afetivo.

Desde 1998 que eu não ia ao país e à cidade que me viram nascer. Uma eternidade, e uma tristeza que me consumia anos após anos, aumentada e seguida de embaraço quando alguém me perguntava se costumava ir lá com frequência, ou qual tinha sido a última vez.

Nessa época, o Brasil tinha acabado de perder a Copa para a França, o país estava em clima de depressão económica e a Costa de Caparica era literalmente invadida por Brasileiros em busca de melhores condições de vida. Portugal tinha acabado de sediar a Expo 98, respirava aparente saúde financeira e estava a caminho da ilusão do Euro. Eu tinha 12 anos, e não sabia de nada, inocente.

Hoje a situação é quase diametral: Portugal enfrenta uma crise sem fim à vista, quase todos os brasileiros da Caparica regressaram às origens, o Brasil organizando a sua própria Copa e seguindo crescendo, ainda que com muito trabalho pela frente para poder confirmar o seu potencial. E eu, agora homem feito, pai, marido, um pouco menos inocente, mas ainda sem saber de nada.

Partimos no dia 21 de Abril e chegamos lá dia 22, curiosamente o mesmo dia em que os primeiros portugueses desembarcaram no Porto Seguro, em 1500. Por coincidência ou talvez não, o avião da TAP que nos transportou tinha precisamente o nome de Pedro Álvares Cabral.

Sabia que a emoção seria sempre imensa, mas as minhas expetativas foram largamente superadas, principalmente num ponto: nos seus quinze meses de vida, nunca vi a minha filha tão feliz. Se sentiu em casa. Não estranhou nada. Adorou a praia e água, adorou a comida, adorou a família, adorou as pessoas,  adorou a bagunça, adorou o sol.

Não vai se lembrar de nada disso, mas quero acreditar que de alguma forma ficará marcado nela e fará parte da pessoa que ela venha a ser. Sem entender onde estava nem pensar em quais eram a diferenças, se apaixonou, como tantos outros que lá chegaram antes dela. E é isso que define o Brasil. Essa capacidade de encantar, de entrar na pele, sem precisar de explicações ou de lógica e sentido.

Está longe de ser um país perfeito? Está. Tem um caminho enorme pela frente. Mas vale a pena percorrê-lo.

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Glendalough

Glendalough

A vila de Glendalough (pronuncia-se algo como glendalorrrrr) é um dos principais motivos para se visitar Wicklow e as suas montanhas, aparte a já de si notável beleza natural da região e de todo o caminho.

É tanto uma viagem ao passado quanto um revigorante passeio pelas colinas e os dois lagos circundantes, e entra diretamente na lista dos meus locais favoritos na Irlanda.

Foi fundada no século VI por St Kevin, um jovem monge que se isolou no vale para meditar e se encontrar, e que por lá viveu durante sete anos. Durante esse tempo pernoitou sob rochedos, comeu o pão que o diabo amassou e vestiu apenas peles de animais, que eram a sua única companhia e alento.

Passados esses setes anos, a história atraiu mais discípulos e a vila cresceu, tornando-se a cidade monástica mais próspera da Irlanda. Esse pedaço de Glendalough ainda está relativamente bem conservado, apesar de ter sido sucessivamente achincalhado pelos Vikings e pelas tropas Inglesas, sempre elas.

Reza a lenda que a verdadeira prova da sua ligação com os bichos (“where he truly became one with the animals“, o que me soa a zoofilia) deu-se numa pedra chamada the Deer Stone; a mulher de um dos seus trabalhadores morreu a dar à luz um casal de gémeos. Desesperado, este pediu ajuda a St Kevin para alimentar as crianças, e ele rezou no local até que apareceu uma corça e amamentou as crianças.

Como bónus, ainda comemos muito bem no restaurante do Glendalough Hotel. Por norma acho que restaurantes de hotel são sempre de desconfiar, mas surpreendentemente foi a primeira vez que saí plenamente satisfeito de um restaurante na Irlanda, por um preço razoável. O borrego mais tenro e saboroso que já comi na vida, e uma truta fresquíssima, apanhada na região.

We’ll be back.

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St Patrick’s Day

Hoje presenciamos pela primeira vez o dia de St Patrick’s aqui na Irlanda. Corrijo. Esta semana presenciamos pela primeira vez o dia de St Patrick’s aqui na Irlanda. Ou este mês. 

A antecipação que lhe precede acaba por transcender o dia em si. É falado, esperado e marketizado até à exaustão por toda a parte, mas no final de contas é um aglomerado de gente empurrando litros de cerveja goela abaixo e proclamando o orgulho que tem no seu país. Dito assim, não difere em nada do resto do ano!

No mês passado foi estranho para nós perceber que os Irlandeses não gozam o Carnaval, mas acaba por ser compreensível, com algo tão semelhante (a diferença é a temática ser única) em data próxima.

Acaba por ser uma festa bonita por toda a parte. Como bom irlandês (mesmo não o sendo), o São Patrício era uma figura bem curiosa; em sua honra transcrevo aqui dez curiosidades sobre ele publicadas no Independent:

1. St Patrick isn’t Irish

Despite being the patron saint of Ireland, St Patrick was born in Britain around 385AD, to aristocratic parents Calpurnius and Conchessa. It is unclear whether they lived in Scotland or Wales, but they are believed to be Romans and are thought to have owned a townhouse, country villa, and many slaves.

2. He was a slave, and wasn’t religious until he was an adult

At 16, he was kidnapped by traders, sent to the Irish countryside and made to tend to sheep as a slave. This is where he turned to God after being ambivalent towards religion as a child.

3. Voices told him he could escape his captors

Six years into his captivity, St Patrick apparently heard a voice urging him to travel to a distant port where a ship would be waiting to take him back to Britain. During the journey, he was captured again, and taken to France for 60 days where he learned about monasticism.

4. He escaped again, and rose up the early Church’s ranks

After making his escape and having found God, he became a priest in his twenties, and eventually became a bishop

5. He gained his sainthood by becoming a missionary

Aged around 30, he was tasked with becoming a missionary and returned to Ireland, where he successfully converted many Celtic pagans to Christianity.

6. He gave the shamrock its significance

It was as a preacher that he used the shamrock, now the unofficial national flower of Ireland, as a symbol of the holy trinity: the Father, the Son, and the Holy Spirit.

7. Snakes never lived in Ireland…

St Patrick has been credited with driving the snakes out of Ireland, although science now suggests that water-locked Ireland did not ever have any snakes.

8. Green wasn’t his colour

Like St Nicholas who is mistakenly associated with the colour red – and actually wore green – St Patrick dressed in blue vestments.

9. He was partial to a shot or two of whiskey

Reassuringly for anyone who feels guilty indulging too heavily on a Saint’s day, it is believed St Patrick said everyone should have more than just a swig of whiskey on his feast day. He apparently chastised an innkeeper who served him too little of the drink.

10. He died on his feast day

St Patrick is thought to have died on his feast day, 17 March, in 461AD. It is a national holiday in Ireland, and on the island of Montserrat in the Caribbean, which was founded by Irish refugees.

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Trazendo o carro para a Irlanda #2

Comecei o Fevereiro cheio de moral para escrever, mas de repente mudamos de casa e a moral passou para outros trabalhos. Agora estamos morando em Boroimhe, que lê-se…. Boriva. Welcome to Ireland.

Mudança de casa, mudança de matrícula do carro. Alguém se lembra de eu ter dito aqui que tinha trazido o meu carro para a Irlanda? Setembro do ano passado? Pois é, o processo só teve fim agora!

Então a história é a seguinte: quem for proprietário de um veículo por mais de 6 meses no estrangeiro (o que é o meu caso) está isento de pagar o VRT, que é o imposto automóvel irlandês. Assim que o carro “aterra” na ilha, dispomos de 7 dias para fazer uma marcação num centro de inspeções (NCTS) e de 30 dias para efetivamente levar o carro até eles para atribuírem matrícula.

O detalhe é que a isenção do VRT não é concedida pelo NCTS, mas pelas finanças (Revenue Commissioners), e é um processo completamente à parte; se chegarmos no NCTS sem a carta comprovativa da isenção, temos que pagar na mesma o imposto e depois somos reembolsados se o pedido de isenção for diferido.

Ora, não estive disposto a pagar o imposto, e daí a demora… para começar, o processo é algo draconiano, que requer cerca de 1 kg de papéis comprovativos de tudo e mais alguma coisa, não só do carro como de nós próprios (comprovativos diferentes de residência da Irlanda e do país de origem, contas, recibos de viagem, extratos bancários…).

Reuni esse atentado ao ambiente, enviei para o pessoal das finanças, mas cometi o erro crasso de não enviar em correio registado e o pedido…. sumiu, ninguém sabe ninguém viu, com livrete original do carro incluído e tudo.

Na segunda tentativa, lá aceitaram que o erro tinha sido deles e “comeram” o pedido mesmo sem ter os documentos originais. Isto nas finanças; para atribuírem a matrícula, precisam impreterivelmente de ter o livrete original para enviar para o governo do país de origem dar baixa, e lá tive que esperar mais uns meses até o IMTT enviar-me a segunda via…

Moral da história: preparem-se muito bem antes de entrar num processo destes, garantam que possuem toda a papelada de que necessitam, e nunca, nunca confiem cegamente nos correios, em qualquer país que seja. Depois falo do seguro, da inspeção e do annual motor tax…

Fontes:

Citizens Information – Importing a vehicle into Ireland

NCTS – FAQ

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Malta – Agora Nós

Na senda do post anterior, acrescento que a viagem foi a propósito de pela primeira vez em muitos anos me ter apetecido comemorar o meu aniversário de forma especial, por ser o primeiro passado ao lado da minha filha. Malta esteve à altura do acontecimento, e passei três dias espetaculares ao lado das minhas maravilhosas mulheres.

A nossa base foi a capital Valletta. À imagem do país, a menor capital da União Europeia é cheia de charme, preserva maioritariamente a arquitetura do século 16, tem uma vista marítima incrível e foi uma das primeira cidades a ser incluídas pela UNESCO na lista de património mundial.

É percorrida a pé com muita facilidade, ainda que a coisa se complique para quem passeie com carrinhos de bebé, porque o piso é bastante irregular e, um pouco como Lisboa, está cheia de subidas e descidas. Nada que o espírito certo não dê conta.

Sliema

A partir dela podemos apanhar ferries para Sliema, que na minha opinião só vale a pena para ir ao supermercado, porque de resto é uma área mais moderna e sem interesse (zara’s e bershkas não são do meu interesse sem ser em viagem, muito menos em), ou para Cottonera, um conjunto de três cidades que já constituem um passeio mais interessante (o ferry vai para Birgu ou Bormla, e apanha-se descendo o elevador no Lower Barrakka Gardens). Foi mais um meio de transporte de estreia para a Carolina, que não estranhou.

Marsaxlokk

No último dia fomos ainda de autocarro até Marsaxlokk, uma simpática vila piscatória cheia de restaurantes e que tem uma imensa feira de peixe e “variedades” no Domingo de manhã. Tem também a curiosidade de ter sido na sua costa que o Gorbachev e o Bush Pai se encontraram para declarar o fim da Guerra Fria (olhando para o lugar, ninguém diria).

Posso recomendar o apartamento que alugamos no AirBnB, que descobrimos na chegada que é de uma compatriota Brasileira e do seu marido Maltês, e é extremamente bem localizado, restaurado e equipado. A nível culinário recomendo o restaurante La Mere, que dá show tanto em quantidade e qualidade, e é mais ou menos para todos os gostos. Com qualquer barraca na rua também ficam bem servidos de pastizzi e outros petiscos que tais, com quanto mais queijo ricota melhor!

O ambiente e o clima na cidade e na ilha nos fazem esquecer que estamos na Europa, sensação só quebrada pelo uso da dita moeda única.

Vamos com certeza regressar no futuro. Muito ficou por ver, e vendo o azul turquesa da ilha de Comino lá de cima do avião, deu vontade de abrir a saída de emergência e saltar logo…

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Malta – Um Pouco de História

Salutting Battery Malta

Malta é o menor país da União Europeia mas, provando mais uma vez que tamanho não é documento, é sem dúvida um belíssimo país.

Um arquipélago perdido a meio caminho entre a Itália, a Tunísia e a Líbia, é todo ele feito de misturas. A língua maltesa soa a árabe polvilhado com algumas palavras de italiano, o inglês é a segunda língua oficial e perdura o péssimo hábito de conduzir do lado errado, herdado dos seus tempos de colónia britânica. A culinária é tanto árabe quanto mediterrânica (mais para o italiana), o que para o meu palato é um verdadeiro deleite.

A sua história é riquíssima. São mais de 5000 anos, que com apenas um fim de semana e alguma leitura de placas e panfletos só consigo resumir de forma muito ordinária e provavelmente com imprecisões, mas vamos lá:

Um pouco de história

Portanto, julga-se que os primeiros a meterem lá os pés eram originários de tribos da Sicília, e há vestígios de construções megalíticas bastante complexas datadas de 5200 antes de Cristo, como o Hypogeum, por exemplo. Depois desses darem o berro, e pela localização típica de refúgio estratégico entre a Europa e a África, a piratagem toda passou por lá: fenícios, cartagineses, romanos, gregos/bizantinos… era só vê-los rodar.

Aí vieram os Árabes, que de quebra com a conquista da Sicília pegaram também Malta no embalo e por lá ficaram cerca de 200 anos, até que chegaram os Normandos e disseram: passa a Sicília e a Malta para cá que vamos formar o Reino da Sicília com essa merda! Devido a uma série de arranjinhos entre as coroas, os Malteses ainda estiveram sob reinado dos germânicos, depois sob os franceses de novo (tudo com o dedinho do Papa), e a seguir ainda sob jurisdição da coroa de Aragão!

À volta de 1500 vem um acontecimento que marcou bastante a história das ilhas. Vou usar aqui o nome original porque a tradução é extensa e soa mal. Os cavaleiros conhecidos como Knights of Saint John, que tinham combatido pela Igreja nas cruzadas, foram “despejados” da ilha de Rodes, ao que (mais uma vez o todo-poderoso) papa disse: vá, tomem lá a ilha de Malta para vocês tomarem conta e sintam-se em casa. Bom, na verdade não foi bem dada, foi pela quantia simbólica de… um falcão Maltês (ou dois, consoante a fonte)!

Eles dedicaram-se com afinco à causa, fortificaram e edificaram grande parte da arquitetura que ainda vemos hoje na ilha, (a capital chama-se Valletta precisamente em homenagem a Jean de Vallette, Grão Mestre da Ordem), livraram a população dos bárbaros, deram porrada nos turcos Otomanos (que era também uma das intenções do nada inocente Santo Pontífice) e prosperaram até gastarem o dinheiro todo com álcool e putaria, que foi quando Napoleão viu a oportunidade de tomar aquilo para os Franceses, o povo de quem os Malteses menos gostaram e que expulsou de forma mais ou menos rápida, com a mão “amiga” dos Ingleses que, obviamente, os tomaram como colónia do Império.

O estatuto de colónia sairia-lhes caro mais tarde. Estando onde estavam e apoiando quem apoiavam, foram quase destruídos na Segunda Guerra Mundial. Uma das primeiras ordens do Mussolini quando entrou na guerra foi: bombardeiem Malta sem poupar munições….

No entanto, aguentaram-se, e obtiveram finalmente a independência em 1964, e declararam-se uma república em 1974, mais precisamente a 13 de Dezembro, o mesmo dia em que lá chegamos em 2013. Sobre o reinado de 3 dias dos Oliveira Cardoso falo em outro post, que este já vai muito longo.

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Andanças, Pátria que me acolheu

Orçamentos

Ontem foram divulgados os orçamentos de Portugal e de Irlanda para o ano de 2014. Não tenho grande autoridade nem me agrada muito falar sobre economia ou política, mas consigo falar sobre aquilo que sinto quando olho para um e para outro.

O orçamento da Irlanda, segundo o governo, é o último sob “assistência” da Troika. Não foi isento de medidas polémicas, mas de modo geral penso que não pode ser considerado um orçamento austero.

As piores notícias não anulam as boas, e as primeiras foram divulgadas com inteligência política, paulatinamente e escutando a reação do povo previamente ao longo do último mês, sem cair muito na desonestidade ou no populismo.

Entre as boas estão a manutenção do IVA a 9% para o turismo, que era suposto ser provisória mas é claramente benéfica, a introdução de cuidados de saúde gratuitos para todas as crianças menores de 5 anos, e a garantia de que os salários, os subsídios e as pensões permanecerão intocáveis.

Entre as más, aumento do preço dos medicamentos sob receita e, cortes em alguns cartões de saúde e  no subsídio de desemprego para menores de 26, e a muito muito má para os Irlandeses: aumento do preço das bebidas alcoólicas, 10 cêntimos por pint, 50 cêntimos por garrafa de vinho!

Não é perfeito e nada garante que as coisas não possam voltar a correr mal, mas há um rumo, há resultados, há optimismo fundado, há preocupação legítima com as próximas gerações.

O orçamento de Portugal, por outro lado, é mais do mesmo. O governo não admite que é austero, mas a sua leitura só demonstra mais agressão, mais depressão, mais insistência em fórmulas que não funcionam, mais tiros no escuro e previsões em que ninguém acredita.

Não sei se fico feliz por estar longe, ou triste por ainda mais longe me sentir, por estas e por outras…

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Andanças

Kilkenny

kilkenny

“There once was two cats of Kilkenny
Each cat thought there was one cat too many
So they fought and they fit
And they scratched and they bit
‘Til instead of two cats there weren’t any.”

O nosso primeiro passeio “grande” de carro aqui pela Irlanda teve como destino Kilkenny, uma vila medieval (eles dizem que é uma cidade, mas tem todo o clima de vila) que é a capital do distrito com o mesmo nome.

Como é frequente na Irlanda, tivemos azar com o clima. Apanhamos um sol espetacular durante todo o verdíssimo caminho, e uma chuva torrencial quando nos decidimos a andar a pé pela vila. Assim sendo, não pudemos ver tudo o que queríamos nem desfrutar por completo do passeio, mas vou deixar aqui umas indicações na mesma, pois penso que vale a pena e que talvez lá voltemos em dias melhores.

Segundo os leitores da revista Condé Nast Traveller, Kilkenny é a nona cidade mais amigável do mundo. Cheia de caráter e história, chegou a ser considerada uma espécie capital não oficial durante a idade média, com parlamento próprio e tudo. Hoje em dia, conjuga o charme arquitetónico que conserva com uma vida cultural e noturna ativa.

A sua atração principal é o castelo, património nacional e um dos locais mais visitados do país, que começou a ser construído em 1172 pelo célebre normando conhecido como Strongbow. Outros locais de interesse são a St Canice’s Cathedral, a Black Abbey ou, mais afastadas e menos faladas mas não menos interessantes, as ruínas em Kells Priory.

If you ever go to Kilkenny, remember the Hole in the Wall, You may there get blind drunk for a penny or tipsy for nothing at all.

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