Andanças

Munich

Nos últimos meses fui a Munique duas vezes, em trabalho (a sede da Sky Germany fica em Unterföhring), mas como é habitual neste tipo de viagens, tipicamente estou lá por períodos de um ou dois dias e não se propiciam grandes passeios.

Na primeira viagem, a única coisa que consegui foi ir até à Marienplatz, a praça principal da cidade, ver o mercado de Natal… a fechar (por lá tudo fecha muito cedo), e comer o famoso Schweinshaxe, um joelho (ou uma junta, sei lá) de porco. Gostei bastante, não tão exótico quanto a descrição possa fazer parecer, é um pedaço de porco assado durante algumas horas, com uma crosta bem crocante e um interior semelhante ao “nosso” leitão.

Joelho de Porco @ Haxnbauer

Na segunda viagem fui com um colega mais “batido” por aquelas bandas e já conseguimos fazer um roteiro bem interessante; primeiro jantamos com um colega alemão num local bem típico e menos tourist-trap que o anterior, a Gasthaus Weinbauer; comemos um Kaiser Schnitzel, que é essencialmente um panado, mas sem dúvida o melhor panado que já comi. Nunca percebi bem a pancada de ter um panado como o prato típico (porque, lá está, um panado… é um panado), mas este tinha uma crosta de Pretzels e um molho de mostarda doce que o tornavam bem interessante.

Terminamos esse jantar com um Schnapps de avelã, com os corpos servidos nos cornos de um veado. Pode parecer meio cruel, mas aprendi também nessa noite que os cornos caem naturalmente de ano para ano e são o tecido que cresce mais rápido no reino animal (novo passatempo: naveguem nos vídeos de crescimento de cornos de veado no youtube e contemplem.)

De seguida, partimos de outra praça famosa, a Odeonsplatz, de onde arrancou o Beer Hall Putsch, a primeira tentativa de golpe de estado por parte do Hitler; no seguimento do fracasso alguns dos seus partidários foram mortos e outros presos, incluindo ele próprio. Nessa estadia na prisão ele escreveu o Mein Kampf, saiu por bom comportamento em 9 meses e decidiu enveredar pela via democrática em vez da luta armada. O resto é história.

Por fim, terminamos a noite na Hofbräuhaus, uma cervejaria com um historial tremendo, fundada em 1589 e que, apesar de notoriamente “turistizada”, tenta ser um ex-libris da tradição bávara, com comida típica da Baviera, banda ao vivo a tocar música tradicional durante todo o dia e, acima de tudo, não sei se servem outros tamanhos, mas só vi canecas de cerveja de 1 Litro (e uma imensidão de turistas arruinados). Fora isto, é tão somente também o local onde se realizou a primeira reunião do partido Nazi, numa sala meio escondida no terceiro andar da cervejaria. Não é propriamente escondida, mas não é algo que seja publicitado.

Costumo abstrair-me um bocado do que se passou, mas confesso que desta vez causou-me um certo arrepio estar nestes locais e visualizar o tipo de coisas que ali se passou.

A explorar mais, em ocasiões futuras.

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Cinemadas

Glass

As expectativas para este filme estavam muito altas: Unbreakable está há vários anos no meu imaginário e a surpresa com que o seus protagonistas regressaram (acho que não vale a pena fazer spoiler alert quase 2 anos depois) tornou Split num dos meus filmes preferidos de 2017.

Não desiludiu. Começou tremendamente confuso, com transições muito estranhas e aparentemente disconexas, mas as poucos tudo foi se compondo e interligando e quiçá até tinha sido uma fragmentação intencional a jogar com a temática dos estilhaços de vidro (ou não tem nada a ver mas até parece bem ver por esse prisma).

Entre vários méritos, e sem surpresas grande parte dele vai para os protagonistas, destaco a forma como é feito um filme de super-heróis que não parece sê-lo, dada a relativa plausibilidade da coisa, e a forma como nos vai fazendo questionar tudo e mais alguma coisa ao longo da história, colocando-nos no mesmo estado de espírito e de questionamento dos protagonistas

Não faço ideia se a intenção original do M. Night Shyamalan sempre foi esta, mas é uma verdadeira lição no que diz respeito a como fechar um ciclo e fazer sequelas que valem a pena. Muito curioso para ver o que faz a seguir, e se ganha balanço de vez ou volta a outra travessia do deserto.

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Photo Ark

Photo Ark é uma exposição National Geographic que mostra como o fotógrafo Joel Sartore se tem dedicado a documentar animais em cativeiro (o “autorizado” e com fins científicos, zoo’s, aquários, institutos, etc) à volta do mundo, há mais de 10 anos. O seu objectivo é mesmo fotografar na totalidade as cerca de 12 mil espécies existentes, promover a sua conservação, alertar para a importância da protecção da biodiversidade e para o facto de que, se nada for feito, mais de metade das espécies animais podem extinguir-se em menos de um século.

Está neste momento e até ao fim de Maio de 2019 na Cordoaria Nacional, em Lisboa, e apesar de pequenina (são cerca de 100 “retratos” animais), vale pelas fotos deslumbrantes e pelo conhecimento e apoio ao projecto (27% do lucro vai directamente para esta missão).

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Leituras

Sou um Crime

Sou um Crime – Nascer e crescer no Apartheid, é a tradução portuguesa (lida aqui na edição da Tinta da China) do primeiro livro do comediante Trevor Noah. Apesar de centrar-se bastante na sua história pessoal, não é bem uma autobiografia, mas antes um relato na primeira pessoa do que significou crescer mulato na África do Sul dos anos 80/90.

O título é literal sem o ser, na medida em que efectivamente o casamento “misto” era crime e punível com pena de prisão, e o nascimento e a cor de pele de Trevor eram a prova cabal do crime consumado pelo seu pai branco e a sua mãe preta.

Nele aprendemos imenso sobre o absurdo que era o regime do apartheid , desmontado aqui com essa arma tremendamente poderosa que é o humor, que ao ridicularizar o tema torna leve a leitura do seu rol de atrocidades, sem nunca perder o tom mordaz e desafiador, não só em relação ao passado quanto a muito do que ainda se passa hoje em dia pelo mundo no que diz respeito às desigualdades sociais.

Fácil e divertido de ler, é também de salientar a verdadeira e sentida ode que o livro é à sua mãe, Patricia Noah, uma mulher tremendamente à frente do seu tempo e espaço, e talvez a grande responsável pela sua mentalidade de desafio (e por estar onde está).


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Leituras

O Anjo Pornográfico

Até hoje a melhor biografia que já havia lido tinha sido O Mago, sobre a atribulada vida do Paulo Coelho pré-escritor-rockstar (incrível ter sido há 10 anos atrás e ainda ter a história tão vincada na minha cabeça…); esta biografia sobre o jornalista, escritor, dramaturgo e polémico reaccionário em geral Nélson Rodrigues rebentou completamente com essa escala.

Fora algumas leituras soltas de artigos curiosos, não era minimamente conhecedor da genial obra do biografado em questão, mas tinha ouvido falar muito bem dos trabalhos do biógrafo Ruy Castro e aproveitei uma promoção da editora Tinta da China (muito boas campanhas online ultimamente) para obter um dos seus mais aclamados livros.

Não fazia então a menor ideia do quão mirabolante era a história não só de Mário quanto de toda a família Rodrigues, que se confunde com as histórias do Rio de Janeiro do século passado, da imprensa criminal e desportiva (um dos seus 12 irmãos, Mário Filho, é tão somente o homem que dá nome ao mítico estádio Maracanã) e do teatro brasileiro.

A obra vale tanto pelo minucioso relato de toda a jornada pessoal e familiar de Mário, com inúmeros dramas, romances, polémicas e reviravoltas que superam qualquer ficção, e que espantam não só pela peculiaridade do seu trajecto, quanto pelo estilo brilhante com que é contada; apesar de factual e baseado em centenas de entrevistas, é quase romanceado, pecando com isso por vezes por uma certa aura de parcialidade e de foco no ponto de vista do narrador e não dos visados, mas que de qualquer das formas me conquistou completamente.

Todas as restantes biografias passaram a estar na minha lista, e fico também com a esperança de que alguma companhia ouse re-encenar alguma das peças (outrora malditas e repletas de incesto e sangue) do autor.

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Rafael Portugal – Eu Comigo Mesmo

Eu sou um consumidor ávido de stand-up comedy, mas ainda não tinha parado para pensar que nunca tinha visto nenhum espectáculo do género ao vivo. Posto isso, não podia perder a oportunidade de assistir à vinda do Rafael Portugal a Lisboa; um pouco pela “saturação” com os restantes, mas muito por mérito próprio e pelo estilo, o Rafael é neste momento o meu actor preferido do colectivo Porta dos Fundos (e do A Culpa é do Cabral).

Foi no Cinema São Jorge, sala bem apropriada para algo do género mas cuja produção teve um início meio atribulado, com algum tempo perdido até sair um som decente dos altifalantes. Nota-se que já deve ser coisa corriqueira para a experiência dele, que foi usando uma situação aparentemente tensa para fazer mais humor e prosseguir mesmo sem microfone e aos berros com a sala toda.

Ultrapassada essa questão, o espectáculo não desaponta e ele é ainda mais hilariante ao vivo e sem rede, havendo apenas três coisinhas a apontar:

  • Apesar do esforço para explicar e “traduzir” as estórias para Português de Portugal, me deu a sensação de que nem sempre era fácil compreender para quem não tivesse o contexto brasileiro (ou carioca) e houveram bastantes momentos em que os portugueses ficaram Lost in Translation.
  • Uma hora sabe a pouco, para o público, mas se pararmos para pensar bem no ritmo e a sofreguidão com que ele dispara, é compreensível que seja humanamente difícil manter o fôlego, portanto está perdoado.
  • Estava expectante para ver se incluía um segmento do estilo música com convidado do público (que não eu), mas não aconteceu, era bem mais interessante que as músicas “normais” que ele toca no fim.

Acredito que ele regresse novamente a Portugal, portanto fiquem atentos, que recomendo.

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Os meus filmes de 2018

Estou vivo! Com um atraso para lá de considerável e seguindo a tradição ancestral iniciada o ano passado, a lista de filmes que me conquistaram no ano que findou, sem ordem particular.

Roma

Ok, este está numa ordem particular e propositadamente em primeiro. Este filme é absolutamente arrebetador, surpreendente, diferente de tudo aquilo que vi durante o ano, e comodamente disponível no Netflix.

Roma não tem nada a ver com a capital italiana, mas sim com um bairro mexicano dos anos 70, onde observamos o quotidiano de uma família de classe média alta pelos olhos da sua criada Cleo. Tanta a sua vida quanto a da família para a qual trabalha vão sofrendo uma série de reviravoltas, que não teriam nada de extraordinário não fosse a absoluta mestria, simplicidade e beleza cinematográfica com que estas são filmadas. É-me difícil explicar isso por palavras, mas poucas vezes senti um filme que tivesse conseguido ser tão pungente com tão pouco.

Esse menino Alfonso Cuáron que se deixa de blockbusters de Hollywood e que faça mais disto, que é uma autêntica obra-prima.

Bohemian Rhapsody

Demorei muito para ir ver este filme porque não tinha lido nada de bom sobre ele em tudo o que eram críticas, mas isso serviu para me relembrar a inutilidade das críticas especializadas de cinema (no que diz respeito à formatação do gosto individual de cada um, obviamente).

Rami Malek merece todos os elogios e mais alguns pela sua performance como Freddy Mercury, em crescendo e culminando no afamado concerto do Live Aid, no antigo estádio de Wembley; arrepiante a forma como ele se transformou e encarnou um dos performers mais poderosos de sempre.

É notória a forma como o filme endeuza em demasia o personagem e seus companheiros de banda, e embeleza a história cortando a eito e em grande as partes mais sujas? É. É deliberadamente feito para vender e para se fazer a prémios? É. Mas que se foda, todos os filmes para entreter tivessem esta força.

A Star is Born

Depois de um início de carreira “manhoso”, o Bradley Cooper tem estado mais ou menos lentamente a afirmar-se como um grande actor, e este filme é mais uma prova disso, aqui com o bónus acrescido de ter sido também o realizador.

A Lady Gaga também esteve bastante bem e os dois tiveram aqui uma química incrível, mas se é para ela que os holofotes estão virados, é ele que carrega o filme. É um bocado batota fazer esse brilharete enquanto bêbado e drogado quando já se foi um, mas não lhe tira o mérito, de todo.

Excelente drama de puxar a lágrima, musiquinhas que ficam no ouvido, uma excelente tarde de cinema com quem se ama.

Incredibles 2

Por razões óbvias consumo muitos filmes de animação hoje em dia, mas verdade seja dita que também uso os miúdos como desculpa e que grande parte provavelmente veria na mesma; este é sem dúvidas um deles.

O primeiro filme tem um lugar especial no meu coração, e tinha que tirar a limpo se tantos anos depois e com tantos maus exemplos este lhe faria jus ou não, e saí do cinema bastante satisfeito, a Pixar ultimamente não tem falhado. A fórmula é super-batida, os super-heróis ostracizados, o drama familiar, o regresso glorioso (isto não chega a ser spoiler…), mas está tudo no sítio.

Comédia na boa, bastantes gags que só os adultos percebem, pertinentes observações sociais (ex. igualdade de género, parecer versus ser) e o bebé a roubar completamente a cena tornaram este filme um dos meus preferidos do ano passado, e quiçá tenha até suplantado o primeiro.

BLACKkKLANSMAN

Sou fanzaço do Spike Lee. Por vezes me chateia que a sua filmografia seja tão inconstante, alternando coisas boas com muita porcaria pelo meio, mas parte disso também se explica pela sua coerência e independência; ele é bastante fiel aos temas e ao seu estilo, e parece preocupar-se mais com isso do que com o sucesso comercial, o que é de louvar (umm lembrei-me do remake manhoso do Oldboy, mas um homem tem que pagar as contas).

Neste Spike Lee joint ele acerta em cheio na fórmula. O primeiro polícia negro de Colorado Springs tem a audaciosa ideia de infiltrar-se no Ku Klux Klan local, e o resto é história. Um filme de outro tempo, filmado com um ritmo “à antiga” mas com uma série de paralelos e provocações com a nossa actual era, alternando entre a comédia e a tensão com grande estilo.

Uma nota interessante da qual não me tinha apercebido: o protagonista é filho do Denzel Washington, aparentemente the apple didn’t fall far from the tree.

Outra nota interessante: para os fãs de The Wire, tem um gostinho especial ouvir certo personagem a repetir uma certa interjeição.

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Teatradas

Baixa Terapia

Baixa Terapia. Eis que quatro anos depois de o termos visto no mesmo teatro, voltamos a ter o privilégio de ver uma peça produzida e protagonizada pelo grande António Fagundes (e família “alargada”), e que está em cena no Tivoli até ao final de Outubro.

Três casais frequentam habitualmente (e em separado) sessões de terapia com uma psicóloga, mas ao chegarem ao consultório percebem que não só esta não está presente, como terão que fazer uma terapia de grupo com os restantes casais que não conhecem, seguindo as instruções preparadas pela terapeuta e deixadas em envelopes no consultório.

Inicialmente a coisa começa meio morna, mas sem nos darmos conta começa a descambar completamente e a entrar numa espiral de discussões absolutamente caóticas e que chegam a ser cruéis, de tão hilariantes; há muito, muito tempo que não me ria tanto com uma peça de teatro, e o melhor de tudo é que a peça não só sucede nessa vertente, como aborda dessa forma uma quantidade absurda de temas delicados, com direito a verdadeiro golpe de teatro no final. Obrigado, família Fagundes!

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Fundraising André Antunes

Não é de ânimo leve que escrevi isto e que comecei este fundraising; este tipo de exposição é algo que custa imenso ao André, mas a situação é verdadeiramente crítica e assim o justifica.

Desde o início de 2016 que o meu grande amigo André Antunes tem enfrentado sucessivas e duríssimas batalhas contra o cancro. O que começou então como fraqueza, cansaço e perdas de sangue, culminou num diagnóstico de cancro no cólon/reto, com diversas metástases hepáticas. Na altura foi-lhe dada uma esperança média de vida de 6 meses.

Seguiram-se 6 ciclos de quimioterapia (interrompidos por terríveis reacções alérgicas) até ser alcançada uma redução que permitiu a operabilidade do fígado, o órgão que lhe punha a vida em risco. Havia uma probabilidade de 50% de que o André não sobrevivesse à operação de 8 horas que se seguiu, mas ele manteve-se na luta. Mais tarde, houve ainda outra operação ao reto, para retirar o que faltava.

Com as metástases mortas e muito pouco tumor activo, os resultados foram animadores, mas não duradouros. As reacções alérgicas não lhe permitiram fazer a quimioterapia preventiva protocolar (fez radioterapia em alternativa) mas, de Janeiro de 2017 até Abril de 2018 os exames revelaram que não havia evidência recidiva. Nesse período voltou moderadamente ao ciclismo de estrada/BTT, à natação e a muito do que era a sua rotina “normal”.

Em Abril deste ano, numa consulta de rotina, com a oncologista, o pesadelo voltou. Tinha metástases na zona pélvica, fígado e pulmão, este num estado muito inicial. Pulmão e fígado foram “queimados” mas tal não era possível na zona pélvica. Tanto o IPO Porto, o IPO Lisboa e o Curry Cabral comunicaram-lhe que não havia solução para o problema; a quimio foi tentada uma última vez, com efeitos terríveis e a percepção imediata de que a sua continuação poderia ser fatal.

Com todas as dores que possuía, a falta de sono e nenhuma perspectiva de tratamento, o André só conseguiu recorrer à alteração dos hábitos alimentares, tornando-se vegan. Ainda que os médicos duvidem dos benefícios, ele sente-se com bastante mais energia deste então, e continua a fazê-lo. Isso deu-lhe uma esperança de que estivesse a melhorar, mas após insistência médica e realização de exames, a conclusão foi que a doença continuava a avançar, e até mais depressa do que o previsto.

Todas estas dificuldades têm sido ultrapassadas às custas da imensa força do André, mas chegamos ao momento em que a todas estas dificuldades junta-se a capacidade monetária. Já há algum tempo que a oncologista lhe tinha indicado a existência de uma clínica na Alemanha para tratamento baseado em células dendríticas , mas foi deixada para último plano precisamente devido aos custos.

A vacina das células dendríticas é produzida com o sangue do próprio doente, que após tratado em laboratório, é devolvido ao doente contendo as informações necessárias que são transmitidas ao sistema imunitário. A teoria é que esta informação leve o sistema imunitário, agora reprogramado, saiba as células que deve atacar e as que deve proteger.

São necessárias no mínimo 4 vacinas, dadas num intervalo de 4 a 6 semanas para que o sistema imunitário esteja suficientemente forte e informado para combater o tumor. Na primeira vez que o doente vai à Alemanha (dia 1 de Outubro, no caso do André), fica cerca de 10 dias; nas vezes seguintes, 3 a 4.

Cada paciente tem a sua terapêutica definida aquando da primeira consulta na Alemanha. Casa vacina custa 5155,66€. A este valor acrescem mais 4000€ para a leucoferese, que só se faz na 1ª ida à clínica.

Neste momento não se sabe com exactidão o custo total dos tratamentos, mas o valor nunca será inferior a 32000€. Uma vez que o caso é bastante grave, ele vai ser seguido pelo Dr. Thomas Neßelhut, pioneiro nesta área. A este valor acrescem viagens, estadia, aluguer de carro, alimentação e suplementos. Neste momento ele já gasta cerca de 360€ por mês em ozonoterapia + suplementos (cerca de 200€), que lhe aliviam as dores e lhe permitem continuar a trabalhar (algo extremamente difícil de convencer o André a abdicar fazer).

Esta é a derradeira e melhor hipótese de tratamento que o André tem, e queremos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para que ele a aproveite. Caso tenham a possibilidade de contribuir, não hesitem em fazê-lo; iremos manter esta página actualizada com os gastos que forem sendo feitos. Podem também fazê-lo directamente para a conta bancário do André:

IBAN: PT50 0018 000338942637020 26
Swift Code/BIC:TOTAPTPL
(André Antunes)

Obrigado!

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Andanças

Grécia – Santorini

Ao contrário de Naxos, de Santorini já tinha ouvido falar bastante e tinha definido como paragem obrigatória nesta passagem pela Grécia; há uns anos atrás trabalhei com um grego que me disse que se tivesse que escolher uma das “suas” ilhas para visitar que fosse esta. Assim o fizemos e não nos arrependemos: por mais turística e repleta de gente que esteja (que até nem foi o caso nesta altura), a ilha da Santa Irini é de uma beleza absolutamente arrebatadora, desde o primeiro momento em que lhe deitamos a vista.

O porto de Athinios (onde atracam os serviços de ferries) dá logo uma bela impressão do que virá a ser o resto: um pedacinho de asfalto encrustado num declive muito íngreme de rocha vulcânica cheia de cores (como em boa parte da ilha), de onde saímos após uma subida alucinante, cheia de curvas e contra-curvas e rasgos de belíssimos panoramas marítimos. Chegamos até ele através da Blue Star Ferries, depois da Hellenic Seaways ter dado banhada e cancelado os barcos em que era suposto chegarmos e partirmos.

Fora esta, qualquer viagem que se faça nesta ilha é uma oportunidade para ficar de boca aberta com os imensos pontos perfeitos para as fotografias: quando achamos que encontramos a melhor vista, andamos mais 20 minutos e já estamos em outra ainda melhor. Não há como não destacar Oia, sendo que fotos e palavras não chegam para descrever o quanto me surpreendi com esta vila: ia com um certo preconceito por achar que era um local muito “retocado” e demasiado polido para turista ver, mas é sem dúvida um dos locais mais bonitos onde já estive. Nota negativa apenas para a exploração que é feita aos burros: é uma atrocidade os animais passarem o dia a carregar turistas (e a levar paulada dos donos) por uma imensidão de escadas, apenas por graça, pois existem alternativas  (teleférico, carro… caminhadas!).

Optamos por ficar em Kamari, lugar de praia (de calhau, mas de água boa), próximo do aeroporto, bastante plano e com tudo ao pé. Ficamos no ApartHotel Zacharakis Studios, que seguia bastante a onda de hotel familiar do anterior, com um dono muito conversador e extremamente prestável.

Tivemos uma sorte mista com o clima nos dias em que lá estivemos: se por um lado não ter estado demasiado calor permitiu-nos não sofrer muito nos passeios que fizemos, ter havido chuva a sério e bastante vento no seguimento em um dos dias levou-nos a pensar que um dos nossos planos sairia frustrado: o de fazer um tour de barco pela ilha e pelo vulcão vizinho.

Felizmente a coisa melhorou e no nosso último dia tivemos direito a isso: os tours de barco não são propriamente baratos, mas valem muito a pena: temos perspectivas espectaculares da ilha, ficamos a conhecer melhor a sua história, paramos nos melhores (e mais isolados) sítios para saltar do barco e nadar e tipicamente incluem uma refeição preparada pela tripulação (o típico churrasco de souvlakis/espetadas e saladas, que cai sempre bem). Estivemos mesmo, mesmo para marcar com antecedência no getyourguide.com, mas o meu instinto levou-me a arriscar e marcar por lá e deu certo; saiu-nos por quase metade do preço (a tal lábia do dono do hotel levou-o a convencê-los a não cobrar nada pelas crianças quando ligou a fazer a marcação) um tour semi-privado (10 pessoas a bordo).

Por ser um local mais turístico, devo dizer que não comemos tão bem nesta ilha, mas há um sítio em Kamari que segue o conceito de Mezze (basicamente tapas/petiscos gregos) de uma forma espectacular: chama-se Pinakio, e garantam que façam uma reserva no dia anterior, porque à primeira tentativa batemos com a porta na cara. Bons petiscos, muito boa onda.

O regresso para Atenas teve que ser de avião, na Sky Express, num bi-motor ATR42. Combinando a confusão no aeroporto de Santorini (que é pouco mais do que um barracão), o atraso que o voo teve, a proximidade com a partida do voo de Atenas para Lisboa, o porte do avião e o vento que estava resultaram numa experiência… diferente e no mínimo interessante, para ter mais algo para contar, mas a bem do vosso coração, recomendo que marquem um barquinho e que seja com uma folga maior.

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