Teatradas

Tribos

Tribos

António Fagundes está em Portugal desde o dia 10 de Setembro com a excelente peça “Tribos”, da britânica Nina Raine.

A peça gira à volta de Billy,  um surdo que nasceu numa família dita “normal” mas absolutamente disfuncional. O patriarca é um professor reformado que tem expectativas demasiado elevadas para a família, que se reflectem em constantes (e hilariantes) discussões com a mulher, escritora frustrada, e os dois irmãos de Billy, uma cantora de ópera fracassada e um paranóico que ouve vozes.

O egocentrismo e os preconceitos do pai fazem com que se tente ignorar ao máximo a deficiência do filho, que aprende a ler lábios e a se comunicar verbalmente, e não através de língua gestual.

Tudo isso muda quando Billy conhece Sílvia, uma moça que apesar de estar ficando surda é o seu oposto: nasceu ouvinte em família de surdos, e está empenhada a levar Billy a assumir a sua condição e a aprender a se comunicar por sinais.

A peça está dividida em nove cenas, e a primeira leva-nos a pensar que não vamos perceber nada. Penso que pode ser proposital, para nos mergulhar no caos em que a família vive, e perceber que apesar de só haver um surdo, na verdade ninguém se ouve verdadeiramente.

À medida que vamos avançando vamos apreciando a evolução dos sentimentos do personagem e vendo a forma como são desconstruídos e ridicularizados os preconceitos da família, em interpretações brilhantes de toda a trupe, sem excepção.

Outro aspecto de se tirar o chapéu é que a peça foi montada em regime de cooperativa entre os actores e a equipe técnica, sem patrocínios ou apoios externos. Claro que ajuda ter um actor consagradíssimo à cabeça, mas não deixa de ser de louvar.

No final há uma conversa informal entre o elenco e a plateia, e foi interessante ver que estavam bastantes surdos no teatro, quase todos muito satisfeitos e agradecidos por verem as suas dores tão bem ilustradas (ao Domingo está lá um intérprete de língua gestual).

Recomendo absolutamente.

Standard
Andanças

Regresso

IMG_20140828_174200

Um ano e cinco meses depois, estamos de regresso a Portugal.

A verdade é que o sol faz falta,e a família toda gosta muito dele. Não nos víamos a passar mais um Inverno na Irlanda.

Não foi assim tanto tempo, mas foi bastante intenso. Só tenho a agradecer à Irlanda por tudo o que nos proporcionou e pelo carinho com que nos recebeu. Não me canso de elogiar os Irlandeses, por serem tão alegres e acolhedores, mesmo vivendo num país com um clima tão hostil. Um irlandês que se cruze contigo tem sempre uma piada para dizer, uma história para contar. Te pede desculpa por algo que não fez, e torna-se teu amigo de forma instantânea.

Na área da informática, em particular, diria que é um dos melhores mercados da Europa para se estar neste momento. Muito dinâmico, muita procura por gente qualificada, bons salários e condições de trabalho. Todas as empresas tecnológicas gigantes estão por lá e em força, devido aos incentivos fiscais que o governo proporciona. Enerva-me que Portugal e Lisboa em particular não enveredem por um caminho semelhante, mas isso são outros quinhentos.

Agradeço também obviamente à Ryanair, que foi quem me carregou para esta experiência. Nunca falei sobre a empresa no tempo em que lá estive porque estava contratualmente impedido de fazê-lo. É uma empresa diferente, irreverente, e com uma tremenda má fama na forma como lida com os seus funcionários, mas não o proveito. No meu caso, senti-me sempre bem tratado e respeitado, do primeiro ao último minuto, e saio com o meu trabalho valorizado.

Slán leat.

Standard
Andanças

Northern Ireland

Aproveitei uma nesga de bom tempo no passado fim-de-semana para conhecer finalmente o país do “lado” de cima aqui da República, a Irlanda do Norte.

O meu speed tour focou três dos pontos principais do país: a incontornável e outrora problemática capital, Belfast, a ponte de cordas conhecida como Carrick-a-Rede Rope Bridge, e o conjunto de rochas de basalto conhecido como Giant’s Causeway.

Utilizei pela primeira vez um dos autocarros verdes da Paddywagon Tours, que não me desapontou. O conceito é low cost mas os condutores (a julgar pelo que me guiou) são bastantes versados em história e em estórias.

A capital foi onde tive menos tempo para gastar, mas não é preciso vaguear muito para nos depararmos com uma boa quantidade dos célebres murais que a preenchem. Ainda que maioritariamente políticos, são quase todos muito belos, ou pelo menos interessantes do ponto de vista artístico. Cada canto de cada rua tem também alguma história escondida. Grande parte das vezes de sangue, infelizmente.

Segundo consta o novo museu do Titanic também é muito bom, mas o tempo escasseou para visitá-lo. Contentei-me em comprar uma t-shirt “TITANIC, built by Irishmen, sunk by an English man”.

IMG_20140823_113958

A ponte de cordas que liga Ballintoy à pequena ilhota de Carrick-a-Rede pode ser de facto assustadora (nunca morreu lá ninguém à parte de um pobre cão), mas bastante mais pequena do que as fotografias aparentam. Em compensação, a beleza envolvente é ainda mais surpreendente do que nas imagens. Num dia bom, e no sábado foi um desses raros dias, é possível ver a Ilha Ratlhin e parte da Escócia.

IMG_20140823_133457

Relativamente a Giant’s Causeway, segundo reza a lenda, o lugar foi erguido por um gigante chamado Finn MacCool, que por lá habitava com a sua mulher, Oonagh (leia-se Una). Esse gigante desafiou outro gigante, escocês, de seu nome Benandonner, para vir até ao seu terreno medir forças, fazendo o tal caminho de pedras para que o rival pudesse lá chegar. No entanto, quando este se aproximou, o irlandês apercebeu-se que afinal o escocês era bem maior do que ele julgava.

Basicamente o Finn MacCool ficou todo borrado, mas a sua bela Oonagh teve uma ideia: disfarçou-o com roupas de bebé e deitou-o na cama. O outro gigante, ao chegar e deparar-se com o suposto filho do MacCool daquele tamanho, julgou que se a criança era assim, o pai seria então o gigante dos gigantes, o pica das galáxias, e fugiu, destruindo durante a fuga o caminho por onde tinha lá chegado.

Obviamente a causa real foi a actividade vulcânica que por lá sucedia há milhões de anos atrás, mas a lenda gera boas conversas e muito merchandising.

Resumindo e concluindo, agora que os Troubles passaram e a paz tem imperado, vale muito pena conhecer este pedaço do Reino Unido, tanto pela beleza quanto pelo seu lado histórico.

Standard
Leituras

A rainha Ginga

ginga

A rainha Ginga: E de como os africanos inventaram o mundo é um romance histórico baseado em parte do percurso de vida e de luta da rainha Ginga, provavelmente a figura mais marcante e emblemática da história de Angola, Angola essa que na altura ainda nem o era.

Ouvi uma entrevista do autor há tempos em que ele dizia que sempre quis escrever esta história e que provavelmente tornou-se escritor precisamente para um dia fazê-lo, mas que durante muito tempo não teve coragem para tal. Em boa hora a encontrou, pois se é efetivamente uma história grandiosa. Agualusa era e foi o escritor indicado para transpô-la em romance.

Além de se notar que foi feito um grande esforço de investigação para manter ao máximo a verosimilhança dos fatos (o que é complicadíssimo dado o período abordado), há sempre aquele salpico de misticismo por toda a parte tão próprio e tão único dos escritores africanos.

A aura de grandeza da Rainha, ou Rei, como ela preferiria, é ainda ampliada pelo facto da história não ser narrada pela própria, mas sim por um padre pernambucano (e jesuíta, e mestiço, e indígena, e muitas outras coisas mais) que serviu de seu secretário e tradutor, e também de tradutor e de elo de ligação entre nós, os leitores, e os diversos mundos que vamos descobrindo à medida que vamos avançando.

Fica a curiosidade de saber mais do percurso anterior e posterior da Rainha ao período retratado, bem como de diversos personagens com o qual o seu destino se entrelaçou. Antevejo bastantes devaneios na Wikipedia nos próximos tempos.

Deixo aqui uma das citações que mais me marcaram no livro, de tão simples parece, mas que tanta força carrega: “Há mentiras que resgatam e há verdades que escravizam”. Excelente leitura.

Standard
Notícias

Timing

Cada vez mais penso que muito daquilo que define a nossa vida é o timing. Há oportunidades que se trabalham e se procuram, mas há outras em que é apenas questão de estar no lugar certo na hora certa.

Podemos ter a melhor ideia do mundo e executá-la da forma mais brilhante, mas se ela não for enquadrada no momento exato, nada feito. Dois exemplos recentes de timing negativo, bem distintos:

Dilma Rousseff. Ano de Copa, ano de eleições. Antes do evento começar, embalada na fé e confiança cegas no talento do eterno “futebol-arte” da seleção canarinha, Dilma larga essa tirada:

“Meu Governo é Padrão Felipão.”

De louvar a ousadia e o risco, mas obviamente arrumou lenha para se queimar (mais ainda) perante os adversários e o eleitorado. Tentou se distanciar da seleção (e da Copa) depois, mas o mal estava feito.

David Duchovny, ator conhecido por encarnar o Agent Mulder dos X-Files e mais recentemente Hank Moody da série Californication. Americano de gema, mas com raízes soviéticas por parte do pai, aceita embarcar num anúncio de uma marca cerveja que especula como teria sido sua vida se ele tivesse nascido russo.

O anúncio é brilhante, mas o timing é o pior possível: o pai dele emigrou para a América a partir de Kiev, na …  atual Ucrânia, claro, não Rússia. O que seria um não assunto (exceto para os ucranianos) há pouco tempo atrás, é um golpe na imagem do ator na atualidade (ou até é positivo, se analisarmos pela ótica do falem bem ou falem mal mas falem de mim).

Não sei o segredo para um timing no ponto, mas penso ser uma mistura de preparo, faro e sorte, em proporções que gostava de conhecer ao certo. Mas penso que até nem tenho andado assim tão longe delas.

Standard
Cinemadas

Canais do Tube #2 – Troma Movies

yetigaylovestory

A Troma é uma produtora de filmes séries B que anda aí desde 1974, quando Lloyd Kaufman e Michael Hertz concretizaram o seu sonho de criar uma produtora independente e com liberdade total para espalhar sangue e entranhas pelos ecrãs de espectadores incautos.

Mais que isso, o objetivo da Troma nunca foi simplesmente o do lucro fácil, mas sim deixar verdadeiramente uma marca no seu género.

Provando que é diferente, há cerca de dois anos a Troma começou a disponibilizar de forma integral e gratuita no seu canal oficial do Youtube centenas de filme do seu espólio, para gáudio dos fãs.

Não tenho tempo (nem tanta devoção) para ver a maior parte deles, mas só de ler alguns títulos que aparecem na sua atividade já fico deliciado com a criatividade bizarra:

YETI: A Gay love story

Farts of Darkness

Buttcrack!

Surf Nazis Must Die

A Nymphoid Barbarian In Dinosaur Hell

Sempre que se sentirem em baixo, vão ao canal da Troma e escolham um filme aleatoriamente. De nada.

 

 

Standard
Paternidade

18 Meses

10534621_806923106008621_6288002442051600700_n

Eu pondero sempre se é agora que vou deixar de escrever sobre a evolução dela mensalmente e passar a fazer uma coisa mais espaçada, mas ela não pára de evoluir e me fornecer material para deixar registado. Além disso, 18 meses são ano e meio, é mês de consulta e tudo, merece!

Cada vez temos que lhe explicar menos coisas. Se perguntamos se quer ir tomar banho ou ir ao quarto dos brinquedos (e lhe apetece), ela começa logo a dar a mão e a encaminhar-se para as escadas. A mesma coisa para ir à rua. Fica chateada quando não consegue fazer as coisas de forma independente.

Pede muita coisa e pede com insistência; se não vai na fala ou no grito, parte para a demonstração, como quando tenta me empurrar para eu deitar e fazer massagem (esse é dos melhores cenários possíveis).

Tem muito vocabulário, mas quase todo cortado pela metade ou por uma das sílabas, o que gera muitos sinónimos no seu dicionário. Minnie é mimi, que também é milho, bola é bó, que também é ir embora, por aí vai. Ao menos nunca se confunde dentro dos seus contextos.

Vai tentando conversar e fazer frases, ainda que sem as ligações. Por exemplo, vai passear de carro comigo e com uma das milhentas Minnies, chega e diz à mãe DADÁ MIMI POPÓ.

A nível motor, está uma máquina, o que nem sempre é bom, pois tenta galgar tudo o que encontra à frente, qualquer que seja a altura. Já não podemos virar as costas no quintal um minuto, pois quando olhamos já está de pé ou de frente no alto do escorrega. Agarra, empurra, empilha, estica, puxa… não noto nenhuma perícia em que tenha dificuldade de maior. Tomou o gosto por rabiscar, mas ainda não lhe deu para experimentar as paredes.

Já é difícil pará-la. Ela que não o deixe, a ninguém, nunca.

Standard
Andanças, Paternidade

Andar de avião com crianças

kids flying airplane

É uma questão que me colocam e que vejo falada na Internet com bastante frequência: como é andar com um bebé, de avião? Mesmo que não perguntassem, basta ver a cara de pânico com que os passageiros à nossa volta olham para nós quando chegamos com a Carolina para perceber que é um assunto delicado.

Tenho alguma autoridade para falar sobre isso, pois já voei com crianças de 3, 4, 5 até 17 meses, em voos de meia, 2, 3, 4 e 10 horas. Obviamente essas “crianças” são sempre a mesma, mas em diferentes etapas de desenvolvimento, o que faz toda a diferença.

A primeira nota que faço é que tudo o que vou escrever aqui é para o nosso exemplo em particular e, como em tudo o que diga respeito a crianças, cada caso é um caso e aquilo que eu vou dizer pode não servir para nada com outras crianças. Mas creio que já ajuda ter uma base de comparação.

O meu primeiro conselho é: nada temam. Não há qualquer contra-indicação médica que impeça uma criança de voar, e qualquer doença que lhe aflija em viagem será, na maior parte dos casos, de fácil resolução em qualquer parte. É sempre bom estarmos munidos de termómetro, paracetamol, etc, mas esses itens existem em todo o mundo.

Segundo conselho: aproveitem. Na maior parte das companhias aéreas os descontos “a sério” para crianças só acontecem até aos dois anos de idade,  a partir daí pagam tanto ou quase tanto como um adulto. Não é preciso ser muito bom em matemática para ver que o preço de tirar férias no estrangeiro dispara drasticamente.

Daquilo que é a minha experiência, quanto mais a criança cresce nesta fase, mais complicado se torna viajar. Com dois a quatro meses sente-se bastante confortável no colo, e a coisa dá-se com relativa facilidade. Quando começa a crescer, gatinhar, andar, tornar-se mais ativa e mais curiosa com o que lhe rodeia, é mais difícil mantê-la sossegada durante horas.

Nesse sentido, aquilo que melhor funciona connosco é… tentar que ela durma. Sempre que possível, tentamos conjugar os voos com horários que sejam compatíveis com a hora da soneca dela, ou então o mais cedo possível; quando ela acorda mais cedo que o costume, o balanço do avião funciona como um soporífero que é tiro e queda. Em voos de longo curso, os voos overnight são a aposta. Se até nós nos cansamos rapidamente de estar encurralados tantas horas num avião, imaginem uma criança. Durmam!

Quando não há forma de conjugar os horários ou de conseguir que ela adormeça, há que fazê-la sentir-se o mais à vontade possível. Levar roupa confortável e que dê para adequar facilmente a qualquer temperatura (os ar-condicionados variam), levar alguns brinquedos do seu interesse para mantê-la distraída (os menos barulhentos possíveis para não incomodar os passageiros em pânico) e, claro, ir munido de mantimentos para mantê-la alimentada e hidratada (que também funciona como distração).

Relativamente a essa parte da alimentação/hidratação e às normas de segurança vigentes nos aeroportos atualmente: comida sólida passa à vontade pela segurança, os líquidos… varia. Tipicamente um passageiro só pode levar líquidos em embalagens de até 100ml na sua bagagem de mão, mas viajando com crianças há tolerância para isto. Essa tolerância pode é ser mais ou menos estrita consoante o aeroporto em que estejamos. Há aeroportos em que os seguranças vêem a criança e deixam passar à vontade, há outros em que levam os líquidos da criança para uma máquina especial à parte, outros ainda em que obrigam os pais a provar os líquidos para demonstrar que não pretendem matar ninguém com eles…

O que fazíamos quando a Carolina era mais pequena e bebia leite em pó era levar um termo vazio, e pedir nos restaurantes da zona de embarque para encher com água fervida; chegando ao avião e à hora da fome era só misturar. Poupava-nos tempo e paciência, e evitava também termos que pedi-lo no avião, às hospedeiras, pois beber água no avião não é recomendável (a não ser que venha duma garrafa selada, claro).

Se tudo isto falhar, e a criança fizer uma birra do tamanho do mundo durante o voo (o que também já aconteceu por estes lados), é manter a calma, respirar, apelar à criatividade, e esperar. O voo não dura para sempre, e a viagem há-de ter sempre momentos bem melhores para relevar esses percalços.

Fly safe.

photo credit: dolanh via photopin cc

Standard