Cinemadas

Big Eyes

Um filme diferente de Tim Burton, por diversos motivos. Não há repetição dos seus actores e actrizes fetiche, não há um ambiente gótico e de cores sombrias, e até é um argumento baseado numa história real.

Não é, contudo, uma história real qualquer; é uma história boa demais para não ser contada por alguém como Burton.

Durante os anos 50 e 60, uma série de quadros invulgares de crianças com olhos gigantes fez um sucesso estrondoso. Os quadros eram assinados por Walter Keane, mas na realidade quem os pintava era a sua mulher Margaret, prisioneira da voracidade comercial do seu marido e refém da sua própria arte durante muito tempo.

O que acabei de dizer acima parece um grande spoiler, mas está presente no próprio trailer e não diminui em nada a experiência do filme, cujo grande mérito é mostrar toda esta realidade quase como se de um conto se tratasse, indo do sonho cor-de-rosa com que Walter envolve Margaret de início, à beira da loucura em que ambos mergulham à medida que a mentira se adensa.

Longe de ser brilhante, é impecável e eu gostei bastante. Até da musiquinha da chata da Lana del Rey eu gostei.

Bateu uma vontade imensa de ver um filme dele sobre os quadros do Menino da Lágrima!

 

Standard
Paternidade

Recado para Alguém no Futuro #12

32 semanas e alguns sobressaltos, filho. Vem com calma.

Se o teu primeiro e segundo trimestres foram bastante mais calmos que os da tua irmã, o último já deu sustos que cheguem para um empate técnico no grau de dificuldade destas gravidezes.

A doutora não gostou muito da última ecografia. Tu estavas (e estás) muito bem para a tua época e no bom caminho para te revelares mais um ser maravilhoso, mas o colo do útero da tua mãe estava muito diminuído, o que a obrigou a repouso absoluto, com risco de ter que ser internada.

Por esta altura já deves conhecer a tua mãe um bocado, saber que ela odeia estar parada e ter estranhado a acalmia, mas foi por uma boa causa. A “coisa” evoluiu bem e, apesar de continuar sobre vigilância, estamos outra vez na pista certa. Não coloco aqui a “foto” dessa ecografia porque, sinceramente, não se percebe nada de ti nesta altura!

Esses teus aposentos devem ser mesmo confortáveis, porque continuas exactamente na mesma posição que da última vez: sentado e refastelado.

O teu quarto aqui fora também já está pronto mas, mais uma vez… vem com calma!

Standard
Cinemadas

Whiplash

whiplash

Não tinha reparado que este filme estava nomeado para os Óscares, mas todo e qualquer reconhecimento que venha a ter é merecido.

Um jovem baterista entra num reputado conservatório musical com o intuito de ser o melhor músico da sua área. Esse desejo é exponenciado por um professor implacável e obsessivo, que o leva a ultrapassar todos os seus limites físicos e psicológicos de forma a tentar alcançar o patamar que pretende.

Apesar do filme gravitar à volta do personagem principal, a sombra perturbadora do mentor paira sobre este a todo o momento, num trabalho simplesmente perfeito dos dois atores.

Assim como a premissa é simples, também o é a sua execução, impecável em todos os aspectos. Em crescendo, o ritmo frenético da bateria de Andrew guia o filme e o espectador até um clímax final absolutamente brutal.

Whiplash!

Standard
Paternidade

Dois Anos

A velocidade dela assusta.

Um turbilhão de coisas se passaram à sua volta desde que fez um ano de idade, mas não há nada que se compare à sua própria evolução.

Já não se resume a dizer uma coisa ou outra: ela conversa, tagarela, conta e desconta, inventa, pergunta, contrapõe, argumenta. Aprende sem ensinarmos, ensina-nos sem percebermos.

Entusiasma-se com a mesma facilidade que se aborrece. Tem muitas e variadas preferências e manias, que vão indo e voltando ao sabor do vento. Tudo é festa, tudo é drama. Tem pressa. Tem medos.

Tanto sou pai quanto sou mais um brinquedo, que ela desmonta e esconde no quarto dos bonecos.

Nem sempre é meiga e doce, mas quando quer, tem muito amor para dar. Mesmo que não queira, terá sempre muito amor para receber.

Standard
Paternidade

Recado Para Alguém no Futuro #11

francisco22semanas

22 semanas, 453 gramas, e tudo bem contigo, filhão.

Já vemos praticamente todos os teus contornos e detalhes, e está tudo onde devia estar.

Estavas sentado numa posição muito confortável, confortável até demais; tivemos que voltar a ver-te uns dias depois, para poder analisar melhor a tua coluna, que também está no ponto. De qualquer das formas, é um prazer.

A tua irmã mostra cada vez mais entusiasmo ao falar de ti. Continuar dizendo que estás dentro da barriga dela é mero detalhe.

Por cá te esperamos.

Standard
Uncategorized

2014

“Boa sorte em me surpreender 2014, conto contigo”. Foi assim que terminei o meu primeiro post de 2013, há exatamente um ano atrás. E não é que o sacana me surpreendeu mesmo?

Todos os anos agora começam com um aniversário da minha filha. Em 2014 foi o primeiro; foi e acredito que sempre será uma celebração maravilhosa, e deu origem a um dos posts mais emotivos que já escrevi.

Uns meses mais tarde, em Abril, outro tremendo impacto foi regressar ao Brasil, ainda mais marcante por ter sido na companhia das minhas amadas. Me aqueceu, me emocionou e me fez repensar muito coisa, a maior delas o próprio local onde eu estava.

A Irlanda me tratou muito bem, mas não fui concebido para o seu clima. Em Setembro estávamos de volta a Portugal. Mais ou menos por essa altura, e porque a primeira vez saiu tão bem, partimos para o fabrico de outra obra de arte

Vem com tudo, 2015!

PS: Pelo quinto ano consecutivo, o que neste contexto significa desde sempre, a saga da amígdala, continua sendo o meu post mais popular (1775 visitas). Consolai-vos, gargantas sofredoras do mundo lusófono, vocês não estão sós!

Standard
Paternidade

Recado para Alguém no Futuro #10

No dia do aniversário do teu pai deixas-te a médica confirmar que sim, és um menino homem.

A tua mãe tem vomitado bastante menos do que na primeira gravidez, obrigado por isso. Talvez seja por a tua irmã dizer que tu não estás só na barriga da mãe, estás também na dela e de vez em quando na minha. Estamos todos grávidos.

Estamos todos te esperando. Vem com calma, Francisco.

Standard
Teatradas

Tribos

Tribos

António Fagundes está em Portugal desde o dia 10 de Setembro com a excelente peça “Tribos”, da britânica Nina Raine.

A peça gira à volta de Billy,  um surdo que nasceu numa família dita “normal” mas absolutamente disfuncional. O patriarca é um professor reformado que tem expectativas demasiado elevadas para a família, que se reflectem em constantes (e hilariantes) discussões com a mulher, escritora frustrada, e os dois irmãos de Billy, uma cantora de ópera fracassada e um paranóico que ouve vozes.

O egocentrismo e os preconceitos do pai fazem com que se tente ignorar ao máximo a deficiência do filho, que aprende a ler lábios e a se comunicar verbalmente, e não através de língua gestual.

Tudo isso muda quando Billy conhece Sílvia, uma moça que apesar de estar ficando surda é o seu oposto: nasceu ouvinte em família de surdos, e está empenhada a levar Billy a assumir a sua condição e a aprender a se comunicar por sinais.

A peça está dividida em nove cenas, e a primeira leva-nos a pensar que não vamos perceber nada. Penso que pode ser proposital, para nos mergulhar no caos em que a família vive, e perceber que apesar de só haver um surdo, na verdade ninguém se ouve verdadeiramente.

À medida que vamos avançando vamos apreciando a evolução dos sentimentos do personagem e vendo a forma como são desconstruídos e ridicularizados os preconceitos da família, em interpretações brilhantes de toda a trupe, sem excepção.

Outro aspecto de se tirar o chapéu é que a peça foi montada em regime de cooperativa entre os actores e a equipe técnica, sem patrocínios ou apoios externos. Claro que ajuda ter um actor consagradíssimo à cabeça, mas não deixa de ser de louvar.

No final há uma conversa informal entre o elenco e a plateia, e foi interessante ver que estavam bastantes surdos no teatro, quase todos muito satisfeitos e agradecidos por verem as suas dores tão bem ilustradas (ao Domingo está lá um intérprete de língua gestual).

Recomendo absolutamente.

Standard