Paternidade

Três anos

Há três anos atrás nascia aquela que é hoje “a minha mais velha”, e nada me proporciona maior orgulho do que ver como ela evoluiu desde então.

Obviamente nem tudo são rosas. Este período entre os dois e os três anos foi definitivamente o mais desafiante até agora. A maior compreensão de tudo o que lhe rodeia conjugada com a capacidade de argumentar e o crescimento exponencial da vontade própria são uma combinação explosiva, materializada frequentemente nas mais poderosas birras. Há que saber aguentar e aprender a lidar com elas, pois tão depressa aparecem quanto passam. Mas moem!

Ainda se atrapalha com algumas palavras, mas em geral tem já um vocabulário muito rico. Não podemos nos descuidar um segundo na sua presença, pois absorve tudo com uma facilidade incrível. Basta ouvir uma vez para entrar no seu repertório. De vez em quando surpreendemo-nos (apesar de tentarmos não demonstrá-lo) com uma ou outra asneira que apanha no ar. Já a vi, por exemplo, a dizer “benfica”.

Tenta ser o mais independente possível, e gaba-se com muito ênfase quando não precisa de nós para alguma coisa, seja vestir, montar um puzzle ou simplesmente meter o cinto de segurança no carro.

Desde sempre soube manipular-me, mas tem aprimorado com cada vez mais requinte essa arte. É “minha fofurinha” para aqui, “meu pai lindo amor” para ali, “somos muito amigos não somos pai?” acolá, e é ver o idiota derreter-se todo a seus pés. Fácil.

Está a 200% na fase dos porquês. Dá-me muito prazer puxar pela sua imaginação e tentar responder a todos até à exaustão, mas na maior parte das vezes acaba por ser do meu lado que esta aparece. Agrada-me que ela questione tudo, e espero que mantenha o hábito para o resto da vida (na devida proporção).

Se me estiveres a ler daqui a uns anos, espero que tenhas mantido também viva a curiosidade, o sentido de humor e a vontade de viver tudo intensamente. E que me continues a ter em conta como um amigo.

Obrigado, por acrescentares vida aos anos que passam.

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Hateful Eight

Chega a ser um ritual. Surgem os primeiros rumores de um filme novo do Tarantino; vou controlando o desenvolvimento da coisa com atenção, acompanho tudo o que vai sendo revelado e confirmado, e fico expectante e excitado até à estreia. Sei que muito provavelmente vou gostar do que vou ver, e eventualmente vou até chegar ao ponto de venerar o resultado.

E assim foi com Hateful Eight, com a excitação acrescida pela ameaça de cancelamento por disponibilização indevida do script antes do tempo, e posterior volte-face.

Este Western pode não ser (difícil decidir) um dos seus melhores filmes, mas assume com certeza um lugar de bastante mérito na filmografia do autor, sendo até bastante inovador em diversos aspectos.

O mais evidente é a banda-sonora. O corte e costura de músicas de outras referências é aqui substituído por uma banda-sonora dedicada e original de ninguém menos que o Senhor Ennio Morricone, que já tinha estado muito presente no universo de Tarantino, mas nunca de forma concertada e intencional. Suspeito que seja algo que Tarantino já quisesse fazer há muito tempo e finalmente tenha conseguido concretizar, e o resultado é muito, muito positivo.

Este “pequeno” facto confere ao filme um ambiente bastante intenso e surpreendentemente diferente do que seria de esperar de um western com Morricone ao fundo; mais carregado, mais negro, algo que sem imagem talvez associássemos mais a um filme de terror do que a um filme de cowboys.

Outra questão foi o equipamento de filmagem escolhido; em vez de uma modernice digital vocacionada para os IMAX desta vida, o filme foi rodado com a clássica Panavision 70 mm. A beleza cinematográfica alcançada é crua e brutal, tanto nos grandes planos panorâmicos (e o filme é repleto deles) quanto nos pequenos closes que se vão fazendo à medida que vamos entrando nas personagens.

Finalmente, as personagens. A forma como estas vão sendo apresentadas, reveladas e lentamente dissecadas, deixando para o clímax final o desvendar das verdadeiras intenções de cada uma delas, é simplesmente brilhante, principalmente por ser feita de forma bastante subtil, e reduzindo ao mínimo indispensável os longos diálogos que costumamos encontrar nos seus filmes.

Tudo isto mostra que o homem está em forma, segue criativo e continua a alargar o leque de truques que tem na manga. Agora é só esperar que não se passem muitos anos até que nos surpreenda novamente.

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2015

Bom dia, ano novo! Queres saber como foi o teu antecessor?

Obviamente, não há acontecimento que sequer chegue perto daquele que teve lugar a 22 de Maio, quando passei de pai a pai de dois. Juntar o Francisco à Carolina trouxe-nos mais algum trabalho, mas tornou a nossa jornada ainda mais fascinante e enriquecedora.

São os filhos que eu queria ter, ao lado da mulher que tornou isso possível. 2015 simboliza estar 5 anos casado com uma mulher maravilhosa, e a cada ano que passa estou mais grato por isso.

Com o reboliço das crianças decidimos que este ano seria calmo a nível de viagens, mas tivemos uma recaída e não levamos muito tempo até enfiar pela primeira vez o mais novo num avião, rumo à nossa ilha da Madeira, onde é sempre muito especial regressar.

Terminei o ano com um estranho déjà vu, sendo operado novamente à garganta, mas confio que desta seja de vez. O ponto positivo é que com essa brincadeira 4kg sumiram do meu corpo, agora é tentar recuperá-los com uma massa mais consistente.

Voltei a empolgar-me com o meu Sporting e, mais surpreendentemente, voltei até a ser sócio, coisa que se me dissessem há dois anos atrás que faria, provavelmente responderia que nunca. Mas ser sempre coerente não tem graça nenhuma.

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Saga das Amígdalas – Mini-Sequela

Seis anos depois de arrancar as amígdalas, os posts relacionados com essa Saga continuam a ser, de longe, os mais populares e comentados aqui do blog.

De certa forma fico feliz em saber que outros sofredores conseguem encontrar algum conforto por aqui, e assim sendo não podia deixar de publicar mais um pequeno episódio relacionado com essa verdadeira zona de guerra que é a minha garganta.

Há cerca de dois anos atrás, ainda na Irlanda, senti um estranho inchaço do lado esquerdo da garganta. Ao espreitar pelo espelho, com a ajuda de uma lanterna, vi que tinha aparecido uma pequena bola branca, mais ou menos no mesmo sítio onde estava a amígdala.

O meu primeiro pensamento foi: PQP C******* F*******, A FDP DA AMÍGDALA VOLTOU DO ALÉM PARA ME ASSOMBRAR!

Mais calmo, fiz uns números de contorcionismo e consegui tirar uma foto para enviar ao otorrino, que me disse que não gostava muito do que via, mas o mais provável é que fosse apenas um quisto. Se tiverem muita curiosidade e estômago, podem clicar na imagem abaixo para ver a coisa.

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Fui ter com ele assim que pude ao Hospital, onde drenou o bicho com uma seringa e enviou para análise, para tentar perceber se era efectivamente um quisto inócuo ou algo maligno. Felizmente era a primeira hipótese. Pelo meio a enfermeira que estava ajudando ainda se picou acidentalmente com a agulha que ele usou, e tive que lá voltar para ser testado e deixá-la descansada quanto ao que de mal pudesse haver no meu sangue. Só acusou o Sportinguismo agudo.

Se não o sentisse nem incomodasse, o quisto podia ser algo que deixávamos ficar por lá, sem problemas. Mas sentia, e volta e meia inflamava e complicava e voltava a história de tomar antibióticos com regularidade e tudo o mais. Assim sendo, partimos para um sai que esse corpo não te pertence, com mais uma espécie de amigdalectomia…

E aqui estou, seis anos depois, passando mais uma semana a moles e frios, chupando calippos como se não houvesse amanhã.

Está sendo bastante mais suportável que a primeira vez; é só de um lado, e em vez de dois monstros que andavam lá a apodrecer há mais de vinte anos, era só uma bolinha. Ainda assim, tive uns primeiros dias bastante dolorosos, que me fizeram mais uma vez desesperar de fome.

Gelatina continua a ser a melhor coisa do mundo nesta altura, mas há algumas coisas novas que decidi experimentar depois do choque inicial e que correram muito bem:
– Ovos mexidos: frios e sem tempero, com uma pitada de leite para ficarem mais cremosos, tem sido a alegria das minhas manhãs
– Papaia / Manga: bem madurinhas, no frigorífico, deslizam que é uma beleza
– Noodles (miojo): apesar de frios e sem molho, também escorregam muito bem e sempre enchem mais um pouco a barriga

E assim segue, sonhando com a hora em que tudo isto passe e tenha a oportunidade de comer um gigantesco e suculento bife.

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6 Meses

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Pisquei os olhos e seis meses se passaram desde que “o meu mais novo” nasceu.

Continua com uma simpatia desgarrada, mas alterna cada vez mais frequentemente com momentos de “indignação”, em que gesticula veementemente e brada não sei bem o quê, com a sua voz grossa de homem em ponto pequeno.

Ainda não se senta sozinho, mas adora estar sentado. Adora também demonstrar força projectando o corpo para frente e para trás, principalmente quando está imobilizado, do estilo “ninguém me consegue parar”.

Apesar de já demonstrar preferência clara por um ou outro desenho animado, não tem especial simpatia pelos brinquedos que lhe metemos à frente, preferindo sempre coisas mais banais que tenhamos em casa. Ou que tenhamos na cara, como os meus óculos, que gosta de arrancar da forma mais meiga que consegue, ou seja, de uma assentada e à bruta.

A alimentação já vai sendo mais variada, e tipicamente marcha tudo o que lhe metemos à frente. Tem 67 cm e 7800 g, o que nos parece uma imensidão ao comparar-mos com a irmã na mesma idade.

A irmã, essa, continua a ser a sua paixão. Pode ser simpático para a maioria das pessoas, mas guarda para ela os melhores sorrisos e gargalhadas, que dispara automaticamente, só dela olhar.

E a partir daí pronto, esquecemos de tudo.

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Entre Abelhas

Entre Abelhas é um filme realizado pelo Ian SBF e escrito por ele e pelo Fábio Porchat, que também é o protagonista.

Sendo eles duas das cabeças do Porta dos Fundos, seria de esperar uma comédia desgarrada ao estilo daquilo que a que o grupo nos tem habituado, mas este é um projecto pessoal que foge bastante desse registo.

Na verdade é um drama que acaba por se tornar divertido porque eles não conseguem deixar de ser naturalmente engraçados, mas nota-se que o objectivo principal não era esse.

O personagem central é Bruno, um editor de vídeo que acaba de se divorciar e de repente começa simplesmente a deixar de ver as pessoas que o rodeiam, a pouco e pouco. Tudo o resto gira à volta da sua tentativa desesperada de perceber e tentar contrariar o que está acontecendo.

Não é um grande filme, mas é uma história diferente, divertida e muito bem contada.

 

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13 Semanas

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O tempo segue voando de forma implacável, e o Francisco já leva três meses de mundo e 6200g no lombo, bem distribuídos ao longo de 61cm.

Sorrir, sorrir, sorrir, continua a ser aquilo que ele mais faz, para qualquer pessoa, em qualquer situação, a qualquer hora. É uma disposição que impressiona e contagia.

Apesar de tamanha simpatia, não dá as melhores noites do mundo. Também não dá as piores, pois não é de chorar para além da fome, mas é de uma inquietação tremenda. Corre uma maratona à noite sem sair do lugar.

Fora isso é um bebé fácil, por ora, e aparentemente rijo. Já estivemos todos doentes nestas férias menos ele, e aguentou os passeios que fizemos como se nada fosse.

Muitos mais haverá de fazer, e muito mais haveremos de sorrir a seu lado.

 

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9 semanas

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Dois meses e pouco de Francisco no mundo correspondem a muitas alterações na sua pequena pessoa.

Eu disse no último post que ele tinha começado a distribuir sorrisos, e assim continuou, com frequência e para quem quer que seja. Tem uma simpatia que não faço ideia onde foi buscar.

Também adora palrar, de um jeito tão compenetrado que parece mesmo que está mantendo uma conversa fluída sobre um assunto qualquer.

Já tem idade para nos surpreender. Na última consulta com o pediatra, ele perguntou-nos se o Francisco já se virava sozinho, ao que respondemos negativamente. Foi só colocar o gajo de barriga para baixo e fazê-lo olhar para o outro lado que estava dada a primeira volta.

Andou com umas cólicas chatas, o que é novidade para nós, mas parece tê-las deixado para trás, com uma pequena ajuda do Colimil.

Tem mais força do que esperamos, e quando está acordado (e às vezes também enquanto dorme), não pára de se movimentar, de olhar para todo o lado, de querer se mexer a sério.

Quanto mais trabalho dá, mais gostoso fica!

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6 Semanas

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Há mais de um mês que o Francisco está no mundo.

Tem crescido a olhos vistos, estando neste momento com 4200g de peso e 55cm de comprimento. É um bebé muito, muito tranquilo, e tem ar de estar sempre atento a tudo o que o rodeia. Já vai distribuindo sorrisos, com maior frequência para a progenitora, para gáudio desta!

Sermos pais de segunda viagem torna as coisas um pouquinho mais fáceis, mas não completamente, pois ele é bastante diferente da irmã, em vários aspectos.

Se ela era presa de intestinos, ele caga como se não houvesse amanhã. Se ela veio completamente carequinha, ele surgiu cheio de cabelo por toda a parte. E por aí vai.

Uma das coisas que temíamos bastante precisamente por não termos experiência prévia, era a reacção dela à chegada do irmão. Li em algum lado que o Jerry Seinfeld disse “A two-year old is kind of like having a blender, but you don’t have a top for it”, e é uma verdade absoluta. Ela é o cúmulo da energia e da imprevisibilidade, mas felizmente até tem sido bastante carinhosa para o irmão. Por vezes, até demais!

E ele, por mais que ela o chateie a toda a hora, já se derrete todo quando a vê e principalmente quando a ouve. Bonito de se ver.

Em pelo menos uma coisa eles são semelhantes: são lindos, maravilhosos, de morrer e chorar por mais.

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Vou contar-te como foi #2

Já não estás no futuro, filho. Já estás no mundo há mais de uma semana, e tem sido espectacular ter-te aqui.

Ao contrário do nascimento da tua irmã, que nos tirou da cama a meio da noite, o teu foi com data e hora marcada, o que não quer dizer que não tenham havido surpresas.

Chegamos ao Hospital Garcia de Orta às 8h10, 20 minutos antes da hora indicada. É o habitual na obsessiva pontualidade do teu cota, como hás-de aprender. Deixei a tua mãe dar entrada no processo e fui estacionar o carro; quando regressei, ela já estava com aquela linda bata azul do hospital e a trouxa na mão.

Entretanto esteve fazendo CTG durante um bom bocado. Às 10h10 chamaram-lhe para entrar para o bloco, e até aí tudo parecia ir de vento em popa para nasceres durante essa manhã, mas infelizmente foi sol de pouca dura. Informaram-nos que havia pouco pessoal de plantão para muitas parideiras aparecendo por lá em trabalhos, e assim sendo a tua mãe ia ter que esperar que as coisas acalmassem, visto que não era uma situação de emergência.

Essa espera durou cerca de doze horas, a somar às outras doze em que a tua mãe estava de jejum. Valoriza-a, muito e sempre, porque muita fominha ela passou para vires ao mundo!

Felizmente, essa espera angustiante e o facto de não ter sido possível eu assistir ao parto foram os únicos ponto negativos do dia. Há que elogiar quando necessário, e este foi mais um parto impecável.

Depois de palmilhar quilómetros de um lado para o outro em frente ao bloco, finalmente, às 20h55, disseram-me que tinhas nascido, às 20h12, com 3220g. A médica, Drª Blandina, brasileira como o papai, veio me dizer que “ele é muito lindo, já fez xixi, já fez cocô, tá tudo funcionando!”.

E és, e fazes, e funcionas plenamente. Por enquanto por si só ainda não dás tanto trabalho quanto esperávamos, mas juntando ao que mana dá, é dureza, sim. Mas não há nada que pague a vossa presença nas nossas vidas.

 

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